O juiz da 7ª Vara Cível da Comarca de Campo Grande, Ricardo Gomes Façanha, determinou que fosse realizada uma transfusão de sangue na paciente M.N.D de K, que se submeteu a uma cirurgia na Santa Casa de Campo Grande e perdeu muito sangue.
Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul, a equipe médica alertou a paciente dos riscos da cirurgia. Ela, por sua vez, em virtude de sua crença religiosa, apresentando aos médicos um documento no qual desautorizava a transfusão, mesmo sob risco de morte. O documento isentava a equipe de qualquer responsabilidade caso o procedimento levasse à óbito em decorrência da ausência de transfusão.
Por esta razão, a Santa Casa recorreu ao Poder Judiciário para determinar que a paciente "suporte/tolere" eventual transfusão sanguínea, no caso de complicações pré e/ou pós operatórias.
Conforme o juiz Ricardo Façanha, a questão posta à apreciação do Juízo não seria novidade, entretanto, segundo ele, "trata-se de discussão das mais tormentosas, na medida em que recai sobre esse tema acalorada discussão acerca da possibilidade de sobreposição do direito fundamental à liberdade de crença religiosa sobre o direito à vida ou vice-versa".
O dilema imposto foi, no entanto, resolvido ao se entender que "[...] o direito à vida (CR/88, art. 5º) é o direito individual primordial, de cuja existência dependem os demais direitos fundamentais, dentre eles a liberdade de crença (CR/88, art. 5º, inciso VI), pois aquela figura como o bem jurídico de maior relevância na ordem vigente, sendo, assim, inviolável e irrenunciável, não podendo ser transgredido por terceira pessoa e, menos ainda, por seu próprio titular".
Assim, como explicou o juiz, entende-se que a liberdade de crença não é absoluta, uma vez que pode encontrar limites em outros direitos fundamentais, sobretudo no próprio direito à vida.
Ademais, fazendo uma correlação com o caso apreciado, o juiz esclareceu que "prevalece, entre nós, o entendimento de que a eutanásia não é juridicamente/constitucionalmente, moralmente ou religiosamente aceitável, seja qual for a justificativa", de modo que não se poderia fazer valer a opção da paciente, diante da indisponibilidade de seu direito à vida.
Por fim, a decisão deixou claro que a intervenção judicial somente se fez necessária porque havia risco de morte à paciente, pois, do contrário, prevaleceria a primeira parte do artigo 46 do Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 1.246/88), que veda ao médico "efetuar qualquer procedimento médico sem o esclarecimento e o consentimento prévios do paciente ou de seu responsável legal".