A sociedade, quanto ao treinamento do controle esfincteriano (controle de fezes e urina), apresenta atitudes que variam de acordo com história e cultura. Existem registros de treinamento de controle esfincteriano em crianças apenas a partir do fim do século 19, quando educadores passaram a ter uma rigorosa disciplinarização dos corpos das crianças, produzindo manuais de orientação aos pais.
Essa educação rígida se abranda com o advento da psicologia do desenvolvimento e da psicanálise, e o controle esfincteriano não fica limitado apenas ao condicionamento de hábitos. Considera-se, então, que a criança precisa alcançar certo nível de maturidade de determinadas partes de seu corpo para poder controlar seus esfíncteres.
A enurese, o popular ''fazer xixi na cama'', pode ocorrer como consequência de um treinamento precoce. O início do controle esfincteriano deve ser durante a fase anal, segundo e terceiro ano de vida, por alguém a quem a criança tenha um vínculo afetivo.
A enurese representa para a criança um pesado fardo e também para a sua família, a qual tenta através de promessas e recompensas o solucionar do transtorno enurético, sem grandes resultados. Além disso, a enurese pode limitar uma série de atividades comuns e importantes na infância, como dormir na casa de amigos e excursões.
Muitas vezes, essas crianças são agredidas, envergonhadas ou recebem castigos por fracassarem no controle esfincteriano. A enurese pode ter muitos significados inconscientes como expressar amor, ódio e sinalizar uma depressão latente. Muitas crianças apresentam timidez, retraimento e isolamento.
Geralmente, excetuando-se casos de deformidade ou doença do aparelho excretor, distúrbios de excreção são expressões de conflitos emocionais e têm sido apontados por diversos autores como manifestações psicossomáticas que merecem nossa atenção, pois afetam a autoestima da criança.
A enurese deve ser vista com cautela. Não devemos tratar e curar o sintoma que a criança traz logo de início, pois este pode nos revelar conflitos emocionais. Um trabalho psicoterápico é recomendado para que se possam trabalhar conflitos e angústias, visando proporcionar um melhor desempenho em seus relacionamentos interpessoais bem como fortalecer seu desenvolvimento emocional.
Ana Paula B. O. Henriques - psicóloga (Londrina)