Ao longo das duas últimas décadas, em virtude da estabilização econômica brasileira, a população vem alterando seus hábitos de consumo, principalmente no que diz respeito à alimentação. E se antes a preocupação do país era erradicar a desnutrição, hoje é a obesidade que mais afeta e ameaça a saúde dos brasileiros.
"No período dos anos 70, pessoas com sobrepeso e obesos eram vistas com mais facilidade entre as classes favorecidas. Atualmente, o maior número de indivíduos com essas características estão presentes na população mais carente. E uma das causas que influenciaram essa inversão é o aumento do poder aquisitivo da classe C, somado ao êxodo rural. Ou seja, naquela época o país tinha mais pessoas no interior trabalhando na lavoura, queimando calorias. Por desejarem ter e oferecer à família uma vida melhor migraram para os grandes centros urbanos. A consequência são cidades ‘inchadas’ com gente atuando em empregos que exigem menos esforço físico", descreve Dr. Luiz Vicente Berti, (CRM-SP 62294), cirurgião do aparelho digestivo.
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Com esta migração, os hábitos alimentares também mudaram, pois as pessoas passaram a ter como forma de ‘entretenimento’ comer fora de casa ou a consumir mais alimentos fast food ou industrializados, como implicação do novo ritmo profissional e social que passaram a vivenciar. Tal aspecto passou a exercer forte influência sobre o comportamento das pessoas. A consequência desse e de outros fatores, como o sedentarismo, é o crescimento da obesidade, que hoje é objeto de interesse universal, não só de entidades médicas envolvidas com o assunto, mas também por parte do governo.
A obesidade é considerada uma doença crônica, multifatorial, de risco para patologias, como a diabetes, osteoartrite, doenças cardiovasculares, hipertensão e problemas respiratórios. "A obesidade pode ser causa de sofrimento, depressão e de comportamentos de esquiva social, que prejudicam a qualidade de vida. Além de trazer sérios riscos para a pessoa, a obesidade é hoje um dos mais graves problemas de saúde pública do mundo", avalia Dr. Berti.
Tratando a obesidade
Dentro desse cenário, o tratamento mais indicado para combater a obesidade, quando o paciente não responde mais às dietas de reeducação alimentar, atividades físicas e medicamentos, é a cirurgia bariátrica. Uma ferramenta importante para alcançar resultados satisfatórios.
"A evolução das técnicas aplicadas na redução da dimensão do estômago nas últimas décadas tornou a cirurgia bariátrica um instrumento seguro e eficaz para a redução do peso corpóreo, nos casos de obesidade resistente às mudanças do estilo de vida e aos medicamentos, e também no controle do diabetes tipo 2 e outras doenças metabólicas. Os métodos atuais de redução do estômago são bem mais seguros, quando comparados às técnicas de ‘desvios’ feitos nas alças intestinais, na década de 1950", conta o especialista.
Comprovado por estudos
Recentemente um grupo sueco publicou no The New England Journal of Medicine um estudo prospectivo iniciado em 1987, em que 1658 pacientes obesos submetidos à cirurgia bariátrica (diversas técnicas) foram comparados com um grupo de 1771 obesos tratados com dieta, atividade física e medicamentos. Os participantes tinham entre 37 e 60 anos de idade. Os homens apresentavam IMC acima de 34 kg/m2 e as mulheres IMC acima de 38 Kg/m2.
No início do acompanhamento, nenhum deles tinha diabetes. Os resultados de cerca de 2/3 dos participantes não entraram na análise final por não terem completado os 15 anos de evolução, necessários no estudo. Verificou-se os seguintes resultados: 502 participantes desenvolveram diabetes, sendo 392 do grupo de controle e 110 do grupo submetido à cirurgia. Estes resultados mostram uma eficácia significativa na prevenção de diabetes através da cirurgia, isto é, redução de incidência de diabetes de 78%. O valor do IMC inicial não impactou nos resultados finais, assim como o tipo de técnica operatória.
"O que todos nós aprendemos e sabemos é que o diabetes tipo 2 é uma doença que progride lentamente, na qual a sensibilidade à insulina e a capacidade de produzi-la diminuem com o tempo. Este estudo sueco sugere que cirurgias bariátricas podem impedir que as anormalidades no metabolismo da glicose progridam para a instalação do diabetes tipo 2. Apesar dos resultados animadores, é impraticável ambicionar prevenir ou controlar o diabetes tipo 2 por meio de cirurgia entre os milhões de obesos do mundo inteiro. É necessário avaliar as necessidades clínicas de cada paciente, prescrever uma linha de tratamento que pode incluir ou não, dependendo do perfil metabólico, a cirurgia bariátrica/metabólica. Esta é uma forma de tratamento, dentre várias, que a medicina dispõe para alguns diabéticos tipo 2", pondera Dr. Berti.
Qualidade de vida
Hoje a cirurgia bariátrica é reconhecida entre os médicos como uma cirurgia metabólica e não apenas como um procedimento para reduzir o excesso de peso, mas uma arma poderosa no controle de graves doenças, conforme avalia o cirurgião Dr. Luiz Vicente Berti. "Os benefícios que esta cirurgia proporciona são evidentes e vão muito além de um simples controle de peso, pois o paciente ganha muito em qualidade de vida e consegue deter outras doenças relacionadas ao sobrepeso, como aumento da pressão arterial, problemas cardiorrespiratórios, trombose, apneia obstrutiva do sono e esteatose hepática, apenas para citar alguns exemplos."
De acordo com Dr. Berti, no caso do diabetes tipo 2, hoje aproximadamente 90% dos pacientes conseguem controlar a enfermidade após a cirurgia bariátrica.
Conscientização
Com o crescimento da incidência da obesidade entre a população mais carente, na opinião do especialista, é necessário realizar uma campanha de conscientização e prevenção, abordando principalmente a influência dos péssimos hábitos alimentares sobre a saúde.
"Hoje, há quatro milhões de obesos no Brasil e são realizadas somente de 50 a 60 mil cirurgias/ano. Desse universo, somente 30-35% da população tem plano de saúde que cobre os gastos com este tratamento. Por outro lado, o SUS - Sistema Único de Saúde - realiza em torno de seis a sete mil procedimentos/ano. É um número muito pequeno quando comparado à crescente necessidade da população em alcançar qualidade de vida satisfatória, principalmente do ponto de vista da saúde física e emocional, visto que a obesidade causa a ‘síndrome metabólica’, doença silenciosa que prejudica diversas áreas importantes do organismo humano, e também o emocional", finaliza.