O prefeito Tiago Amaral (PSD) caminha para os últimos dias do seu primeiro ano à frente da Prefeitura de Londrina, com uma gestão marcada, sobretudo, pelas dificuldades orçamentárias e financeiras identificadas logo nos primeiros meses de 2025.
Em entrevista à FOLHA, o chefe do Executivo cita a falta de velocidade da estrutura pública e a ausência de uma digitalização mais profunda dos serviços como desafios enfrentados pela gestão, além do dinheiro curto para cumprir as obrigações assumidas pela Prefeitura. O contingenciamento da verba de custeio foi anunciado em fevereiro, diante de um déficit da ordem de R$ 300 milhões.
Tentando colocar a casa em ordem, Tiago avalia que 2026, primeiro ano com o orçamento elaborado pela sua equipe, ainda será de organização. A previsão é de um montante da ordem de R$ 3,8 bilhões, com Saúde, Educação e Assistência Social concentrando as maiores fatias dos recursos públicos.
“Nosso time está preparado para, em 2026, chegar com muito gás, com muita força”, garante o prefeito, que reconhece as dificuldades impostas pelo ano eleitoral.
O próximo ano também deve marcar o início da já anunciada reforma administrativa, defendida por Tiago desde os primeiros dias da gestão.
Confira a entrevista com o prefeito Tiago Amaral:
FOLHA - Tiago, terminando seu primeiro ano como prefeito, quais foram as principais dificuldades?
Tiago Amaral - A própria velocidade que temos na estrutura pública e a falta de muitos processos organizados. A falta de uma estrutura bem digitalizada da Prefeitura, que é praticamente inexistente. Muitas estruturas que seriam necessárias, muitos fluxos, um sistema para a gente dar celeridade, efetivamente não existiam. Nós não conseguimos, é muito difícil conseguir colocar o ritmo que a gente precisa no formato que a Prefeitura estava. O trabalho que estamos fazendo ainda é essa reorganização, trazer a digitalização para a Prefeitura. É uma Prefeitura que não teve investimento em tecnologia ao longo dos anos. Não vimos troca de computadores, implantação de sistemas, uma transformação digital. O cidadão não consegue, por intermédio de plataformas digitais, se comunicar com a Prefeitura, ter serviços e demandas atendidas. Isso dificulta muito a nossa capacidade de gestão. Acaba travando um pouquinho. E não tem como não falar da situação muito complexa deixada em termos orçamentários e financeiros da Prefeitura. Tem dois “cavalos de Troia” que foram deixados. A questão da Previdência, mas isso a gente tem que enfrentar. Foram seis anos sem aportes e, nos últimos dois anos [da gestão do ex-prefeito Marcelo Belinati], foram feitos alguns aportes. Praticamente todo o déficit foi deixado para a gente corrigir agora, em relação à Previdência. E o outro é o transporte coletivo, não só pelos valores, mas pela falta de previsão, de capacidade orçamentária para isso. O orçamento de 2024 para 2025 tinha R$ 300 milhões de dívidas efetivamente feitas ou compromissos financeiros que sequer foram previstos no orçamento.
FOLHA - Agora, 2026 será o primeiro ano com o orçamento feito pela sua gestão. O que o senhor está projetando para a cidade?
Tiago Amaral - 2026 ainda é um ano de organização, de ajuste, porque realmente Londrina precisava disso. É uma diferença muito grande entre a nossa capacidade de pagamento e aquilo que vinha sendo comprometido. No entanto, quando a gente monta o orçamento, já sabemos os desafios que vamos enfrentar, sabemos os pontos que precisamos corrigir. Nosso time está preparado para, em 2026, chegar com muito gás, com muita força. Será um ano que tem a eleição como desafio, mas tem tudo para ser muito bom. Neste primeiro ano, no primeiro semestre, houve muita reorganização da casa, no segundo o foco foi a captação de recursos. Realmente temos um grande volume sendo trabalhado junto ao governo do Estado e eu acredito piamente que vamos ter o maior nível de investimento da história de Londrina ao longo de 2026 e 2027.
FOLHA - O fato de ser um ano eleitoral acaba atrapalhando?
Tiago Amaral - Bastante, porque você não tem o segundo semestre. É no primeiro semestre que você precisa ter seus projetos aprovados, convênios assinados e, preferencialmente, licitações já feitas. Mas o nosso foco principal vai ser a assinatura de convênios e dar início aos processos licitatórios. Eventualmente, os processos licitatórios que a gente não concluir antes da eleição podem ser continuados na sequência. Não tem problema em relação a isso. Se os empenhos estiverem feitos, com o caminho bem estruturado, bem avançado, conseguimos captar esses recursos na sequência.
FOLHA - A barragem do Igapó foi uma pedra no sapato da Prefeitura desde fevereiro. Quando a obra vai começar efetivamente?
Tiago Amaral - O maior desafio era a qualificação técnica de quem nós contrataríamos e a disponibilidade de especialistas para isso. Ninguém está acostumado a fazer projeto de barragem, pelo menos não na nossa região, nem mesmo o Paraná Cidade está acostumado a analisar projetos de barragem. Isso acaba atrapalhando bastante e, de certa forma, nós conseguimos fazer uma contenção que, na primeira oportunidade não tinha transcorrido bem, mas na segunda, sim, deu supercerto. Conseguimos conter o problema. Então, não valia a pena fazer qualquer tipo de ação que fosse provisória. Aquela estratégia feita por especialistas da Prefeitura [uma ensecadeira] deu certo. Então, temos tempo agora para fazer o projeto. É claro que quanto antes fizer, melhor, mas, diante desse cenário, era exatamente o que deveria ter sido feito. Agora estamos caminhando bem. Devemos ter, nos próximos dias, autorização para licitar essa obra por parte do Paraná Cidade, e os projetos estão concluídos. Já está certo o recurso do Estado.
FOLHA -Também há expectativa sobre a reforma do Teatro Zaqueu de Melo e a conclusão do Teatro Municipal. Haverá algum avanço no próximo ano?
Tiago Amaral - No Zaqueu de Melo, estamos terminando o orçamento, os ajustes finais por parte da Secretaria de Obras. É um projeto um pouco complexo, porque se trata de um grande patrimônio. Temos a questão dos Bombeiros, uma série de situações ali, e queremos um projeto muito bonito. Nós já temos, para isso, em torno de R$ 6 milhões. Sobre o Teatro Municipal, a gente tem muitas propostas, muitas perspectivas, algumas ideias, mas, por enquanto, eu me mantenho fiel à ideia inicial, com a expectativa de que o governo federal termine a obra que começou. O ponto mais importante ali foi a validação do “esqueleto”. O “esqueleto” está ótimo, dá conta de receber mais estrutura, mais investimentos. Estamos articulando com os deputados e existe uma possibilidade junto ao governo do Estado de captar recursos, mas entendo que realmente é o caso de buscarmos junto ao governo federal. Se não tiver nenhuma perspectiva, daí a gente inverte e vai buscar no governo do Estado.
FOLHA - Falando sobre o governo federal, como está a articulação do senhor com os deputados?
Tiago Amaral - A resposta mais óbvia está nas conquistas que tivemos este ano, não só junto ao governo do Estado, mas também ao governo federal. O próprio ILS é um exemplo disso. É a maior demonstração do tamanho da articulação e da força que a gente conquistou. Eu sempre bati nessa tecla: posicionamentos ou ideias pessoais, de concepção de sociedade, não podem travar nossa capacidade de articulação e captação junto aos órgãos que, eventualmente, não têm essa mesma mentalidade. Uma coisa é o pensamento político, outra é o pensamento prático de sociedade. Também temos a entrega do Museu de Arte, é a Lei Aldir Blanc, tem um fundo para isso, mas também é uma parceria com o governo federal. E não tem como não citar a maior conquista da história de habitações pelo FAR [Fundo de Arrendamento Residencial], maior inclusive que o Vista Bela, que foi reconhecidamente o maior programa habitacional quando surgiu. Batemos esse recorde com as 740 habitações que estão em execução pelo FAR e as outras 2.649 [que tiveram o edital lançado em outubro]. E estamos prestes a anunciar o acordo para a solução do Flores do Campo, que também vai gerar um número grande de habitações pelo FAR. Um dos maiores desafios de Londrina é a habitação, e eu tenho um compromisso com a cidade de entregar uma resposta concreta para melhorar a qualidade de vida das pessoas que hoje vivem em áreas de invasão, áreas totalmente periféricas, sem nenhum tipo de estrutura. Isso realmente é uma parceria, uma articulação junto ao governo federal.
FOLHA - A tarifa do transporte coletivo está definida para 2026?
Tiago Amaral - Não está definida. Eu não gosto do aumento da tarifa. Realmente não gosto. Eu tenho muita dificuldade para isso, até porque acho que tem um impacto muito grande, inclusive no volume de passageiros, que é um dos maiores gargalos do nosso sistema de transporte. O que eu puder fazer para evitar que isso seja transferido para o passageiro, para o usuário frequente, eu vou fazer. Se aumentar um real a tarifa, não chega a R$ 20 milhões a mais para a composição final das receitas. Em 2025, colocamos quase R$ 180 milhões em subsídio, então cairia para R$ 160 milhões. Não resolve o problema.
FOLHA - O senhor acredita que a tarifa técnica pode estar supervalorizada? Em dezembro de 2024, pagava-se cerca de R$ 8 e, em janeiro, passou a pagar R$ 11.
Tiago Amaral - Essa é a pergunta. E quem pode comprovar isso? Uma auditoria.
FOLHA - O que é um problema agora, já que a contratação da auditoria está sendo investigada pela Polícia Civil. Como o senhor está enfrentando essa questão?
Tiago Amaral - Não há um real em discussão em relação à contratação. O valor foi totalmente devolvido, por determinação nossa. O contrato foi rompido por decisão da gestão e, assim que entendemos que poderia ter havido algum tipo de interferência, não é nem uma irregularidade, mas talvez uma falta de ética na composição do processo, determinamos a interrupção. É importante dizer que, em diversas oportunidades, tivemos empresas de familiares disputando o mesmo contrato, a mesma licitação, na Prefeitura. Isso foi fonte de denúncia no ano passado, durante a eleição, envolvendo familiares de pessoas que estavam na gestão, diga-se de passagem. Está muito claro que não há nenhum tipo de prejuízo financeiro para a administração. O que preocupa é que parece que quem iniciou esse processo está mais preocupado em colocar uma manchete, sem que haja um real em discussão aqui, do que colocar os olhos nesse aumento que aconteceu no dia 30 de dezembro de 2024, no último dia de mandato, por uma administração que não estaria à frente da Prefeitura em 2025 e que não havia sido fruto de uma auditoria, o que está previsto em contrato.
FOLHA - A sua gestão começou falando em reforma administrativa, mas ela ainda não ocorreu. Pretende fazer essas mudanças em 2026?
Tiago Amaral - Eu acredito que sim. Eu sempre falei que, apesar da urgência disso, não adiantaria fazer de forma atropelada. Quando você vai reformar sua casa, primeiro você para, analisa e vê o que vai fazer, porque depois de feito é muito difícil desfazer. É uma reforma de dentro para fora. Precisamos modernizar a Prefeitura, isso é fato. Acho que ninguém duvida disso. Precisamos repensar muita coisa lá dentro. Hoje, não temos equipe disponível para tocar o serviço do dia a dia e, ao mesmo tempo, pensar, planejar, desenhar, implementar e validar uma reforma ao longo do tempo. Não tem equipe para isso. Se eu parar para planejar, vou ter prejuízo no serviço. Essa é uma equação que complica muito todo tipo de grande mudança. Por isso, apoios externos serão necessários. Estamos discutindo muito sobre isso, conversando com muita gente para entender todas as transformações necessárias. Enquanto isso, a nossa garantia é modernizar com aquilo que já temos e ser mais efetivos com o que temos. Pretendo fazer isso em 2026? Sem dúvida.