“Eu voltei para casa com 65 picadas pelo corpo e minha casa agora está infestada”, “Essa situação me trouxe grandes problemas; desde então, não consigo mais viajar de ônibus” e “As picadas ocorreram em duas viagens que fiz em menos de um ano, ambas com o mesmo serviço, pela mesma companhia”. Os três relatos apresentados são de passageiros que viajaram em “Cabines Cama” da Viação Garcia. Apesar de terem ocorrido em períodos diferentes e em veículos distintos, todos os depoimentos apontam para a mesma denúncia: uma infestação de percevejos na primeira classe da frota da empresa.
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Longe de ser uma situação pontual, as denúncias se estendem de 2024 até abril deste ano. A reportagem apurou que, entre as linhas afetadas, estão: Londrina/Curitiba (vice-versa), Londrina/Campinas (vice-versa) e Maringá/São Paulo (vice-versa).
Na descrição oficial, o serviço da “Cabine Cama” é apresentado como a opção de “alto padrão” de viagem da companhia, em que o passageiro tem acesso a “poltronas reclináveis em 180º”. Entre os diversos benefícios inclusos no pacote, está a oferta de mantas e travesseiros. É nesses dois itens que os denunciantes relatam ter ocorrido o contato com as picadas e onde os insetos foram encontrados inicialmente. Imagens e vídeos feitos pelos passageiros confirmam a presença dos percevejos nos acessórios.
O caso mais recente — até o momento — é o da jornalista Isabela Nicastro Salvador. Celebrante de casamentos, Salvador conta que viajou de Londrina para Curitiba em um “bate e volta”, no fim de semana do início de abril, para trabalhar em uma cerimônia e que, para não chegar cansada ao destino, optou pela contratação do serviço com leito.
A percepção da jornalista sobre o ataque dos insetos não foi imediata, já que os sintomas das picadas costumam aparecer somente após algumas horas ou até mesmo dias, como foi o caso dela. O tempo de reação costuma variar dependendo do sistema imunológico e também de a pessoa já ter sido picada anteriormente pelo inseto, fator que faz o corpo reagir mais rapidamente em uma segunda exposição.
“Durante o fim de semana, em Curitiba, não tinha sentido nada. Elas [as picadas] começaram a aparecer e a coçar só na terça-feira, aqui em Londrina. No começo, nem imaginei que poderia ser isso, pensei que fosse uma reação alérgica. Foi quando tive um ‘estalo’, pesquisei sobre isso e encontrei pessoas com a mesma situação, as mesmas marcas, reclamando que tinha ocorrido na Cabine Cama da Garcia”, detalha. Ao todo, a jornalista contabilizou 65 picadas em regiões como costas, braços e pernas.
Passados alguns dias, Salvador conta que começou a perceber novas picadas em seu corpo, motivo que a deixou em alerta e indicou que o problema continuava, agora, em sua casa. “Quando me toquei que eram os percevejos, olhei por tudo na minha casa, só que não encontrei nada. Não havia nenhum sinal do inseto ou da presença deles. O cocô deles deixa uma marca que parece ferrugem, mas não vi nada. O problema são os ovinhos, eles são invisíveis a olho nu. Passou um mês da viagem e eu comecei a acordar com novas picadas. Eram menos, mas iguais às da primeira vez. Uma noite, acordei de madrugada e vi vários deles andando no meu edredom”, conta.
Uma empresa de dedetização foi contratada pela jornalista para garantir a eliminação total da infestação. Entre as diversas sessões de limpeza, Salvador conta que precisou deixar sua casa, por um dia, junto com a mãe e o cachorro, devido à presença dos produtos químicos.
“Quando descobri isso na minha casa, eu entrei em pânico, tive uma crise de ansiedade grave. Não paro de pensar nisso, virou um trauma, estou virando quase uma especialista no assunto”, confessa.
A jornalista tentou entrar em contato com a Viação Garcia em dois momentos: assim que identificou a origem das picadas, dias após a viagem, e quando soube da presença dos percevejos em sua residência. A jornalista diz que a empresa confirmou estar ciente do problema e que faria o reembolso do valor das passagens e dos custos das dedetizações. O retorno ocorreu somente após a jornalista divulgar o caso em plataformas de reclamação online.
No texto encaminhado, o Grupo Garcia afirmou a ela que o veículo infestado passaria por um “processo de dedetização completo e criterioso”, para garantir a “total eliminação de quaisquer percevejos”. Garantindo o “padrão de excelência”, a nota ainda dizia que a Viação Garcia adotaria todas as “medidas administrativas cabíveis [...] para prevenir qualquer REINCIDÊNCIA”.
Porém, outro ponto revelado por Salvador é a existência de um documento que a impediria de buscar o ressarcimento dos valores por vias judiciais. A reportagem teve acesso exclusivo ao documento. Nele, é descrito que a concordância com os termos anularia a possibilidade de “reclamar em tempo algum”, seja em “juízo ou fora dele”. Para a jornalista, a prática evidencia uma forma de silenciamento das reclamações.
“O certo seria eles retirarem esses veículos de circulação e fazer toda a higienização, trocar até os estofados, se precisar. Mas eles preferem o lucro. Para eles, é mais fácil reembolsar os poucos que percebem e reclamam. Isso porque a maioria nem nota”, aponta a jornalista.
Corroborando a denúncia de Salvador, a médica Vanessa Diacópulos Silva não passou por apenas uma situação semelhante à da jornalista londrinense, mas por duas, em um intervalo de apenas três meses. Ambas também na “Cabine Cama” da Viação Garcia. Em entrevista ao Portal Bonde, Silva revela que, por estar no último ano da residência em Dermatologia na Autarquia Municipal de Saúde de Apucarana, não demorou muito tempo para identificar as características das picadas de percevejo. No total, foram registradas 40 picadas.
“Minha primeira viagem em que vi os insetos foi em novembro do ano passado. Minha rota era entre Maringá e São Paulo. Para mim, foi bem fácil reconhecer elas [as picadas]”. Na época, a médica conta que não entrou em contato com a empresa, pois quem fez essa tentativa de reembolso foi a irmã, com quem havia viajado. “Já a segunda vez foi em fevereiro deste ano, em uma viagem de Londrina para Curitiba. Como eu já tinha passado por isso uma vez, dessa vez levei meus lençóis, fui de meião e blusa de frio. Quando cheguei à capital, levantei o meu lençol e olhei: estava cheio de percevejos. Comecei a rezar para não ter sido picada. Mas, se tivesse sido, as marcas apareceriam em algumas horas, devido à familiaridade do meu corpo com isso. Foi exatamente o que aconteceu em seguida”, explica.
Silva detalha que, na volta para Londrina, pediu para retornar em um assento padrão e que não encontrou nenhum problema por conta disso. Para ela, sua casa só não ficou infestada também porque tomou todas as medidas de contenção necessárias para evitar esse cenário.
Questionada sobre quais são as características desse tipo de lesão, a médica compartilha que coceira e inflamação intensa são os resultados mais comuns. “As pessoas também precisam tomar bastante cuidado com o sol, pois a recuperação demora e ficam algumas hipercromias pós-inflamatórias”.
Devido ao seu tamanho, muitas vezes confundido com um carrapato, o percevejo pode facilmente passar despercebido. “Ele reage ao calor, principalmente ao do nosso corpo. Quando identifica uma temperatura mais quente, sai de onde está para se alimentar”.
Na grande maioria das pessoas, o efeito da picada não gera um risco grave à saúde. Mas Silva reforça que, como a reação varia de organismo para organismo, não apenas a manifestação dos sintomas, mas também a gravidade dos efeitos da picada pode evoluir criticamente em pessoas alérgicas. “Assim como acontece com alergias a abelhas, existem pessoas que podem ter um choque anafilático”.
Sem pedir o reembolso da segunda viagem, a médica decidiu que, pela recorrência do caso e por se tratar de uma questão de saúde pública, a situação deveria ser levada ao Judiciário. Sem dar mais detalhes sobre o processo em andamento, a médica compartilhou que uma das audiências ocorreu na tarde desta quinta-feira (28).
A denúncia segue com o relato de uma terceira passageira, o mais antigo identificado nesta apuração. Sob a proteção do anonimato, a entrevistada aceitou ceder à reportagem seu relato sobre o tema. O caso ocorreu em agosto de 2024, na rota entre Londrina e Campinas (SP).
Ao sentir um incômodo durante o trajeto, a passageira ligou a lanterna do celular e registrou a presença de múltiplos percevejos nos cobertores e também em partes da própria cama, como a divisão entre os leitos. Acompanhada do esposo, a denunciante diz que precisou seguir viagem com o desconforto causado pela presença dos insetos. Ambos registraram picadas após o ocorrido.
Descrevendo a situação que se seguiu como “caótica”, a passageira compartilha que precisou passar por diversas consultas médicas e tomar remédios e injeções antialérgicas. Por trabalhar com a própria imagem, precisou se ausentar do trabalho, já que muitas das picadas estavam na região do rosto.
A passageira diz que precisa ir a São Paulo pelo menos uma vez por mês. Entretanto, o trauma da situação a impede de viajar novamente de ônibus, fazendo com que precise utilizar carro ou avião.
A passageira moveu uma ação contra a empresa, na qual saiu vencedora. Segundo ela, a medida tinha como objetivo evitar que outros clientes passassem pelos mesmos transtornos e forçar a empresa a corrigir o problema. Ela revela que continua sendo contatada por outros passageiros que se lembram do seu caso e lamenta que a situação ainda não tenha uma solução definitiva.
Outros quatro passageiros que supostamente também foram impactados por esse problema foram contatados pela reportagem, porém não se manifestaram até o fechamento deste texto.
O que diz o Grupo Garcia
Diante das denúncias, a reportagem procurou o Grupo Garcia, que concordou em ceder uma entrevista exclusiva para comentar o tema. A convite da empresa, todo o processo de higienização e dedetização dos veículos foi acompanhado de perto, na sede do grupo, em Londrina.
Junto ao trabalho de dedetização padrão, realizado nos veículos a cada 60 dias, Amorim revela que outra forma de controle das infestações adotada pela empresa é o aquecimento dos veículos. Por meio dele, a parte interna do ônibus é superaquecida para tornar o ambiente desfavorável aos insetos.
“É como se fosse um micro-ondas dentro dele [ônibus], é algo em torno de 50 graus. Isso faz a reprodução parar, já que eles procuram por locais frios. Implementamos essa técnica há uns 25 dias. Investimos algo em torno de R$ 100 mil para a compra desses aquecedores em todas as garagens. Estamos há dez dias sem nenhuma incidência de reclamação. Assim que identificamos vestígios deles [percevejos], os tiramos de linha”, garante.
O coordenador afirma que, enquanto a eliminação total não é comprovada, o veículo não pode deixar a garagem. “Teve um carro que precisou ficar parado por mais de 50 dias, pois sempre encontrávamos novos vestígios”, exemplifica o responsável.
Ao serem questionados sobre a existência de denúncias de infestação em 2024, os representantes disseram que, naquele período, a empresa ainda não tinha conhecimento de como lidar com a presença dos insetos. “Quando tivemos noção da situação, desmontamos um carro por completo. Retiramos todas as 40 poltronas para descobrir onde eles se escondiam. Durante esses anos, fomos entendendo os hábitos noturnos deles, por exemplo, e maneiras mais significativas de fazer esse controle”, esclarece Amorim.
Quanto à higienização dos itens de cama oferecidos, como cobertores e travesseiros, a empresa diz que a confecção e a manutenção desses equipamentos são feitas internamente, sem a participação de terceirizadas. “A lavagem dos kits é feita em alta temperatura também, então não é uma falta de higiene”, assegura a gerente de marketing, Mariane Fernandes.
Quanto à devolução dos valores pagos, a Viação Garcia garante que se compromete a restituir as quantias recebidas “sem nenhum problema”, desde que “seja comprovada a existência dos insetos nos veículos da empresa”. Entre as justificativas apresentadas pela empresa para corroborar essa exigência está o grande volume de “constatações improcedentes”, que utilizam manipulação de imagens por IA (Inteligência Artificial) e/ou a reutilização de comprovantes entre clientes distintos.
“Agora conseguimos verificar o carro no dia. Então, o cliente nos notifica e já fazemos a verificação no veículo. Toda notificação é legítima e incentivamos as denúncias, pois queremos fornecer a melhor experiência de viagem. Caso não tenha sido assim, queremos reembolsar o cliente, desde que seja justo”, conclui a gerente de marketing.
(Atualizado às 14h22)