Londrina registrou quase 200 pessoas em situação de rua a menos que Maringá (Noroeste) em 2024, de acordo com o levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), divulgado na quarta-feira (13). Enquanto Londrina anotou 744 pessoas em situação de rua, cerca de 4,77% do total do Paraná, a Cidade Canção, com cerca de 150 mil habitantes a menos, registrou 925. Os números, entretanto, podem ser bem maiores, segundo especialista ouvida pela reportagem.
O estudo da UFMG ainda destacou Curitiba (4.244 - 27,2%), Foz do Iguaçu (1.028 - 6,59%), Ponta Grossa
(947 - 6,07%), Maringá (925 - 5,93%) e São José dos Pinhais (844 - 5,67%) como os cinco municípios com as maiores populações em situação de rua do Paraná. Londrina se posicionou logo na sequência, na 6ª posição. Completam o Top 10 Cascavel (580 - 3,72%), Guaratuba (329 - 2,11%), Campo Largo (321 - 2,06%) e Apucarana (305 - 1,95%).
Na Região Metropolitana, Rolândia (179) lidera depois de Londrina, seguida de Cambé (172), Arapongas (147), Ibiporã (123), Bela Vista do Paraíso (16) e Tamarana (13).
Em todo o Paraná, foram registradas 15.604 pessoas que vivem nas ruas. Destas, 53,99% são brancas; 45,37% negras; 0,38% amarelas; e 0,19% indígenas. Em relação ao grau de instrução, 47,7% têm o ensino fundamental incompleto; 14,7% completaram essa fase; 17,6% têm o ensino médio concluído; 10,5% não completaram essa fase; 6,8% não têm instrução e 2,4% têm o ensino superior incompleto ou completo. Cerca de 13% tem algum tipo de deficiência e 90% são homens.
'A realidade é outra'
Para a gerente de Atendimento às Pessoas em Situação de Rua em Londrina, Daniela Paraizo, os dados divulgados pela UFMG não conseguem captar toda a complexidade do fenômeno em Londrina. Isso porque o levantamento é baseado no Cadastro Único, o que não engloba toda a demanda do município.
“Nós recebemos muitas pessoas de fora, porque Londrina é uma cidade procurada para trabalho, mendicância, uso de substâncias - porque falam que aqui o valor é mais acessível - e exploração sexual. Olhar essas pessoas a partir do Cadastro Único é um pouco irreal, porque muitos estão cadastrados em outros municípios e não são identificadas como de Londrina”, afirma.
Essa percepção é realçada por estudos locais e dados da própria Secretaria da Assistência Social. Em 2018, uma pesquisa da UEL (Universidade Estadual de Londrina) estimou que havia pelo menos 1,2 mil pessoas em situação de rua no município, número que, segundo Paraizo, se mantém como referência.
Os registros do IRSAS (Informatização da Rede de Serviços de Assistência Social) mostram um fluxo ainda maior: em 2019, 3.225 pessoas diferentes passaram pelos serviços anualmente; em 2020, foram 3.389; em 2024, no pós-pandemia, 4.115; e em 2025, até junho, foram 2.512, com estimativa de ter chegado a 4.500 até o fim do ano.
Rede de acolhimento cresceu
Daniela Paraizo atua diretamente com o público em situação de rua desde 2017. À época, segundo ela, a cidade contava com apenas três serviços de acolhimento: Casa do Bom Samaritano, SOS (Serviços de Obras Sociais) e Associação MMA. Desde então, a rede foi ampliada e reestruturada para atender às exigências da legislação e à diversidade de perfis.
“Londrina foi se adequando aos serviços tipificados, como casa de passagem, acolhimento e repúblicas. A nossa metodologia foi sendo aprimorada para atender vários perfis”, explica.
Atualmente, o município oferece desde serviços de pernoite - para que as pessoas possam dormir em local seguro, jantar e tomar banho - até casas de passagem masculinas e femininas, onde o acolhimento pode durar até 60 dias. Nesse período, a equipe busca redes de apoio, inclusive em outros municípios, para viabilizar o retorno dessas pessoas aos seus locais de origem.
Há ainda estruturas mais específicas, como a residência híbrida, voltada a pessoas com transtornos mais elevados; casas destinadas a quem já passou pelo acolhimento, mas enfrenta dependência química; e três residências para PcDs (Pessoas com Deficiência) cujas famílias não têm condições de oferecer suporte. “São diversos perfis. A gente olha as pessoas em situação de rua e percebe que elas não têm um traço só”, ressalta a profissional.
Orçamento e perda de programas
Paraizo também chama atenção para o impacto das restrições orçamentárias. Conforme o Portal Bonde noticiou em dezembro, a Secretaria da Assistência Social sofreu cortes no orçamento e teve que descontinuar serviços.
“Com o encerramento de algumas parcerias no segundo semestre, como deixaram de ter acesso a esses serviços, essas pessoas saíram dos registros. Precisamos avaliar se essas pessoas não estão mais no município ou se não conseguem mais acessar os serviços”, alerta.
Um exemplo citado é o encerramento do programa Nova Trilha, que foi "sacrificado" em prol de outros serviços considerados mais importantes. "O Nova Trilha foi encerrado e havia pessoas que só acessavam os serviços por ele. Depois que fechou, em dezembro, não conseguimos mais encontrar essas pessoas. Talvez estejam nos bairros”, diz.
Hoje, Londrina conta com 11 espaços de acolhimento: serviço de pernoite, casa de passagem masculina, casa de passagem feminina, acolhimento SOS, acolhimento Renascer, residência híbrida, república assistida, república moderada feminina e três casas para pessoas com deficiência. Todos funcionam em parceria com a Prefeitura de Londrina, por meio da Lei 13.019, com termos de colaboração.
Problema estrutural e limite da capacidade
Para a profissional da assistência social de Londrina, o aumento da população em situação de rua está diretamente ligado ao contexto pós-pandemia.
“Depois da pandemia, houve uma precarização nos serviços e na renda da população. Houve um aumento desse público, que foi para a rua. É um problema estrutural do mundo, por isso recebemos várias cidades nessa situação”, afirma.
Apesar da expansão da rede, a capacidade ainda é insuficiente diante da demanda. “A nossa rede de atendimento foi crescendo porque são serviços que estão na legislação. Isso é fundamental para que as pessoas não fiquem na rua”, pontua Paraizo, ressaltando que, atualmente, Londrina dispõe de cerca de 250 vagas de acolhimento para um universo de aproximadamente 4 mil pessoas que passam pela cidade todos os anos.