Londrina

Filhos mortos em ação da PM: mães da Bratac, em Londrina, criticam morosidade da Justiça

14 fev 2026 às 10:11


As mortes de Kelvin Willian Vieira dos Santos, 16, e Wender Natan da Costa Bento, 20, deixam as mães dos jovens sem sono há um ano. No dia 15 de fevereiro de 2025, os jovens saíram do lava-jato onde trabalhavam, no Jardim Nossa Senhora da Paz (Zona Oeste), para comprar bebidas em uma distribuidora no Jardim Santiago, bairro vizinho. Ao deixarem o local, foram perseguidos por uma viatura da PM (Polícia Militar) e mortos a tiros. 


Até então, o resumo da ocorrência era consenso. A partir desse ponto, instaurou-se uma guerra de narrativas entre familiares e agentes: a família aponta suposto excesso da polícia, que afirma ter agido em legítima defesa.


Em 24 de abril, pouco mais de dois meses após as mortes, o IPM (Inquérito Policial Militar), conduzido pela PM de Maringá (Noroeste), concluiu que Julio César da Silva, Luiz Ricardo Monteiro da Silva, Jeferson Fontes Longas e Gabriel Ferreira de Lima Bosso, os quatro policiais militares envolvidos no suposto confronto, agiram em legítima defesa. Após a conclusão do inquérito, eles retornaram ao patrulhamento. Entretanto, imagens de câmeras de segurança divulgadas pela RICtv levantaram dúvidas sobre as versões apresentadas pelos agentes.


Inquérito da Polícia Civil


Paralelamente, a Polícia Civil instaurou outro inquérito para apurar a conduta dos PMs. Com o surgimento de novos laudos e provas, as investigações vêm se arrastando. Atualmente, o processo corre em segredo de Justiça, medida que, segundo o MPPR (Ministério Público do Paraná), foi solicitada pelas próprias famílias. A advogada das mães de Kelvin e Wender, Iassodara Ribeiro, atua como assistente de acusação no caso, ao lado do MPPR, órgão responsável pela ação.


“Eu, como assistente de acusação, analiso o processo e peço diligências. Como não posso pedir diretamente, envio para o promotor e ele passa adiante, tudo para a Polícia Civil acrescentar no inquérito”, explica Ribeiro. 


Segundo ela, todos os pedidos feitos foram acatados pelo MPPR. “[O promotor] Não insurgiu em nenhum [pedido]. As diligências são complementações de laudos, coisas que ficaram faltando. O próprio órgão pediu alguns esclarecimentos. Os pedidos foram encaminhados para a Delegacia de Homicídios.”


Para a advogada, a morosidade está nas investigações da Polícia Civil, que, quando não consegue apresentar os resultados dos laudos nas datas estipuladas, pede a prorrogação dos prazos.


“Em todo o pedido de diligência, o promotor dá 60 dias, porém algumas a polícia não consegue cumprir. Então, o delegado pede a prorrogação do prazo e o promotor defere”, diz, ressaltando que dia 23 de março é a data final para a Polícia Civil apresentar o resultado de uma das diligências esperadas pela acusação. 


Somente com o encerramento do inquérito o promotor do MPPR poderá decidir se denunciará ou não os policiais envolvidos. A acusação, segundo Ribeiro, conta com a perícia dos corpos e com as imagens para contrapor a versão levada em conta no IPM.


“A prova principal, além das periciais, são os vídeos que já foram divulgados pela imprensa. Eles vão confrontar o depoimento dos policiais”, garante.


‘Estamos cansadas dessa demora’


O Portal Bonde esteve nesta quinta-feira (12) na residência de Vanessa da Costa, mãe de Wender, para ouvi-la sobre o andamento do processo. Ela e Sirlene Vieira, mãe de Kelvin, dizem não aguentar mais a demora para a resolução do caso. De acordo com Vanessa, as datas proteladas são uma constante tortura.


“Agora que estava para chegar [a data], o promotor pede mais dois meses. É um luto que a gente não consegue viver. Queremos justiça!”, desabafa. “Achamos que ia durar três ou seis meses, mas já faz um ano. Pelo que sabemos, o prazo para o resultado final é em abril, se eles não pedirem mais tempo. É uma aflição muito grande.”


A mãe de Wender, jovem que morreu após receber 13 tiros, relata que, desde o dia que soube da morte do filho, não consegue aproveitar momentos em família.


“Às vezes queremos fazer algo, mas não conseguimos nos reunir como antes. Lutamos tanto, mas a sensação é de nadar, nadar e morrer na praia. Enquanto esses policiais não forem denunciados, não poderemos fazer nada”, diz.


‘Não caí na real ainda’


Sirlene afirma que a fase de negação não passou. Ela ainda pergunta o porquê da morte do filho e tenta encontrar alternativas para assimilar a dor, que, para ela, nunca passará.


“Na primeira semana, eu ficava me questionando se ele ia aparecer, porque não caí na real ainda. Por que o Kelvin? Não que teria de ser outro. Não teria que ser ninguém naquele momento. Acho que eles [os PMs] não queriam pegar o Kelvin, mas sim um bandido. Eles confundiram os nossos filhos.”


Cada detalhe daquele sábado, quando tudo aconteceu, está registrado na memória de Sirlene. Ela denuncia que foi vítima de agressão física por um policial, que impedia populares de se aproximarem dos corpos.


“Foi tudo muito rápido. Eu estava jantando na minha irmã quando a notícia chegou. Corremos lá para ver, e acabei levando um tiro na perna. Hoje tenho essa cicatriz. Me magoa muito vê-la, porque me lembro do momento em que fui falar que meu filho não era bandido, e ele [o policial] puxou o meu cabelo, me empurrou e atirou. Como que um homem espanca uma mulher e não acontece nada?”, questiona.


Câmeras de segurança


Sirlene tem esperança que as imagens de câmeras de segurança próximas, que foram anexadas ao processo, possam influenciar no resultado do inquérito.


“As imagens são muito importantes para a gente, porque elas mostram que quando eles saem da distribuidora, os policiais os seguem. Nas imagens, dá para ver que o policial não manda ninguém parar. Primeiro eles atiram e depois falam”, explica.


A diarista aposta nas supostas contradições contidas no IPM em comparação com as filmagens. Ela também afirma que há testemunhas no bairro, mas poucos têm coragem de falar o que viram e ouviram naquela noite.


“Há muitos rastros. Foi uma execução. Os dois trabalhavam, lutaram naquele dia. Eles não poderiam morrer dessa maneira. Os policiais deveriam parar e perguntar quem eram eles. Nem isso deram a oportunidade. Não deram a mínima chance.”


Represálias e intimidações


Vanessa conta que alguns policiais envolvidos nas mortes dos jovens voltaram ao bairro para, segundo ela, intimidar os familiares. Além disso, relata que moradores passaram a sofrer represálias financeiras.


“Nos primeiros meses, eles vinham aqui e levavam as motos e os carros. Mandavam o guincho levar. Levamos multa. Havia casos de policiais batendo nos jovens, xingando e ameaçando. Os PMs que executaram o Wender e o Kelvin passam aqui no bairro e olham a gente com cara feia. Debocham. Olham como se a gente tivesse tirado alguém da família deles, mas foram eles que tiraram uma pessoa importante da gente”, diz.


Sirlene compartilha do mesmo medo. Ela complementa a renda de doméstica vendendo espetinhos no bairro, mas expõe que também presencia cenas de intimidação constantemente.


“Eu vendo espetinho e, quando tô na rua, juntam algumas crianças e adolescentes. A polícia passa e debocha. Tenho muito medo. Pensei em parar de vender, mas é o meu ganha-pão. Aqui parece que a gente não pode ter nada.”


Para a mãe de Kelvin, o problema ultrapassa a situação que envolve o seu filho. De acordo com ela, o preconceito das autoridades é histórico e tem relação direta com a formação da “favela”.


“Quem mora na favela não tem liberdade.Temos medo dos filhos serem executados. Todos os favelados, negros, pretos e pobres são discriminados. Se fossem da Gleba, ou de qualquer outro lugar, esses jovens não estariam mortos. Não é porque moramos na Bratac que somos bandidos. Em todo lugar há pessoas boas e pessoas ruins.”


Difamação na imprensa


As mães da Bratac pontuam que o próximo passo após o fim do inquérito é processar as pessoas públicas que teriam difamado Wender e Kelvin. Na lista, estão nomes de profissionais da imprensa e políticos.


“A imprensa falava que eles roubavam, que deram fuga… tudo mentira! Não é verdade. Somos mães, mas não estamos protegendo só os nossos filhos, queremos que a lei observe isso e investigue melhor”, diz Sirlene.


Elas não negam que o carro em que os jovens estavam no momento da perseguição tinha pendências criminais com a polícia, mas garantem que tudo não passou de um mal-entendido.


“A mídia divulgou que o Kelvin e o Wender eram vagabundos, mas isso não é verdade. Vamos provar que eles não eram bandidos e nunca andaram armados. Estavam no carro errado? Estavam! Mas a obrigação da PM era abordá-los. O Kelvin foi executado com sete tiros. Foram tantos tiros que a cabeça do meu filho explodiu”, lamenta Sirlene.


'Factóides'


O advogado Eduardo Miléo, responsável pela defesa dos quatro policiais envolvidos, afirma, em entrevista ao Portal Bonde, que os relatos de Vanessa e Sirlene não passam de “factóides”, que estariam sendo usados para atrapalhar as investigações.


“Isso é um factóide que a família e o crime organizado da Bratac trazem. Eles contaram que foram retiradas amostras das mãos desses homens, mandadas para o Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal e foi encontrada pólvora?”, questiona.


Segundo ele, o delegado que cuida do caso pediu às mães a liberação dos celulares dos jovens, o que teria sido negado por elas.


“Já que eles estavam indo para a uma festa, não eram envolvidos com o crime, posso abrir o celular deles? Sabe o que disseram as mães? 'Não'. Elas criam factóides e problemas para a defesa. Mas quando o delegado pede para abrir o celular, elas dizem que não precisa abrir.”


Miléo nega veementemente que os seus clientes tenham passado pelo Jardim Nossa Senhora da Paz após a noite do suposto confronto.


“Os policiais envolvidos diretamente nunca mais passaram pela Bratac por ordem do comando [da PM]. Outros policiais vão, porque não é o crime organizado que vai dizer se um policial pode ou não pode passar pela Bratac”, afirma, esclarecendo que o suposto policial citado pelas mães está trabalhando na área administrativa, sem ter contato com as ruas.


Sobre as imagens de câmeras de segurança, Miléo destaca que elas corroboram com tudo o que foi relatado até o momento pelos agentes de segurança.


“As imagens comprovam exatamente aquilo que os policiais disseram. As famílias contam várias mentiras. Elas falam que eles não tinham dinheiro para comprar armas, mas, no dia, eles haviam gastado mil reais em bebidas. Está nos autos.”


O advogado ainda levanta suspeitas sobre o lava-jato que Wender havia adquirido duas semanas antes do suposto confronto. De acordo com ele, o local era utilizado como armazenamento de produtos roubados.


“Em dezembro, a polícia encontrou uma infinidade de objetos furtados no lava-jato que eles estavam trabalhando. Aquilo não era um lava-jato. Era um depósito de coisas roubadas. Eles usavam o carro para entrar na casa dos outros. Não há uma foto deles com uma mangueira na mão”, diz.


O outro lado


As mães relataram à reportagem que o perito que analisou o caso disse que a pólvora encontrada nas mãos de Wender e Kelvin pode ser resultado de tiro à queima roupa. Sobre as bebidas, disseram que os jovens fizeram “vaquinha” para chegar ao montante. A mãe de Wender também esclareceu que ele tinha curso para trabalhar como lavador de veículos.


Polícia segue investigando


Procurada pela reportagem, a Sesp (Secretaria Estadual de Segurança Pública) informou, por meio de nota, que o inquérito referente ao caso segue em andamento e aguarda a conclusão de laudos periciais para sua finalização. Segundo a secretaria, a apuração ocorre dentro dos trâmites legais, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário.


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