Londrina

Clínica clandestina de Londrina 'resgatava' pessoas à força e as mantinha trancadas

08 abr 2026 às 18:21

Uma clínica de recuperação localizada no bairro Lago Parque, na Região Central de Londrina, foi interditada na última segunda-feira (6) após denúncias de que internos eram levados à força, mantidos em cárcere privado e submetidos a maus-tratos. A ação do MPPR (Ministério Público do Paraná), em parceria com a Vigilância Sanitária, resultou na prisão de cinco pessoas, que tiveram a detenção convertida, nesta quarta-feira (8), em preventiva pela Justiça, sob suspeita de crimes como sequestro, tortura e irregularidades no uso de substâncias terapêuticas.


Segundo a promotora de Saúde Pública de Londrina Susana Lacerda, o local já era alvo de denúncias anteriores. Em 2024, a promotoria já havia feito visitas à sede da clínica. “Fizemos uma visita e foram identificadas várias irregularidades. Recentemente, recebemos novas denúncias e organizamos essa ação novamente”, afirma.


De acordo com a promotora, esse tipo de instituição deve seguir regras específicas, principalmente quanto à internação involuntária dos pacientes, o que não foi identificado no momento da abordagem. 


“É importante que as pessoas entendam que quando é um local para tratamento de vícios contra drogas e álcool, a internação tem que ser voluntária. Pode até haver internação, porém, nessas hipóteses, os locais têm que ter estrutura completamente diferente, com médicos, enfermeiros, mas esse local não tinha."


EX-PACIENTES E 'RESGATES SOCIAIS'


Segundo ela, havia pelo menos 40 pessoas no espaço, número superior ao informado pelos responsáveis, que alegaram tratar 30 pessoas. Entre os pacientes, havia idosos, pessoas com deficiência e com transtornos mentais, todos mantidos juntos em condições precárias.


“Encontramos todos os tipos de irregularidades. Estava em más condições de higiene. Havia pessoas com suspeitas de doenças infectocontagiosas também”, diz Lacerda. As investigações apontam que parte dos internos era levada contra a própria vontade, em ações descritas como “resgates sociais”. 


“Por exemplo, a pessoa estava na casa dela, e eles iam lá, contra a vontade da pessoa, e a levavam para internação. Isso é violência”, expõe a promotora. De acordo com ela, depoimentos indicam que os internos eram mantidos trancados por longos períodos sob a justificativa de "funcionários descansarem”.


Segundo Lacerda, não havia acompanhamento médico ou psicológico, nem plano terapêutico na clínica. Funcionários não tinham registro de trabalho formal e eram ex-internos que permaneciam no local em troca de moradia. 



ALIMENTOS TRANCADOS E VENCIDOS


Ainda de acordo com as apurações, foram encontrados alimentos vencidos e doações feitas por familiares que não eram repassadas aos pacientes. Também há indícios do uso de substâncias irregulares desconhecidas, usadas para sedar internos.


O Portal Bonde teve acesso aos relatos de algumas vítimas, que afirmaram ter sido levadas à força de suas casas, sem consentimento, e mantidas "em ambiente fechado, com restrição de liberdade". Há denúncias de agressões físicas, ameaças e uso de medicação sem controle adequado. Os depoimentos indicam condições precárias de alimentação, higiene e assistência à saúde, além do medo de represálias.


Nas redes sociais, a clínica usava de discursos religiosos para mostrar a evolução de pacientes. A promotora ressalta que há relatos de que igrejas indicavam o local para tratamento de fiéis e familiares, mas nenhuma instituição religiosa foi citada nominalmente.


VIGILÂNCIA SANITÁRIA


Procurada, a Vigilância Sanitária informou que a clínica foi interditada por falta de regularização, ausência de licença sanitária e alvará vencido. O órgão também destacou que a clínica já havia sido fiscalizada em outras ocasiões, inclusive em 2025 e neste ano.


A ação contou ainda com apoio da Secretaria Municipal do Idoso, da Secretaria Municipal de Saúde e do CRM-PR (Conselho Regional de Medicina do Paraná).


A Justiça, nesta quarta-feira (8), considerou a gravidade dos fatos e o risco à ordem pública para manter os investigados presos. Segundo a decisão, assinada pela juíza Fabiana Bressan, há indícios de prática reiterada das irregularidades, já que a instituição continuava funcionando mesmo após fiscalizações anteriores.


ADMINISTRADOR FORAGIDO


O sócio-administrador da clínica está foragido, enquanto a esposa dele está entre os presos. A PCPR (Polícia Civil) esclareceu, em nota enviada à reportagem, que autuou em flagrante os cinco envolvidos por falsificação, corrupção, adulteração de produtos terapêuticos ou medicinais, tortura e cárcere privado.


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