Londrina

Chuva inunda casas e famílias perdem tudo no Novo Amparo

27 fev 2026 às 13:31

“Eu achei que a gente ia morrer”. Esse é o relato de Vilma Estanislau Alves, 60 anos, durante o forte temporal que atingiu a região do Novo Amparo, na zona norte de Londrina, durante a tarde desta quinta-feira (26). A idosa, que precisa de uma cadeira de rodas para se locomover e tem o pé esquerdo amputado, chegou a passar mal por conta do medo e precisou ser socorrida de ambulância enquanto via a casa sendo tomada pela água. 


A família de Alves vive em três casas construídas em dois terrenos, um ao lado do outro, na Rua Maria de Jesus, a mais atingida pelas chuvas. Ela conta que estava com alguns dos familiares em uma das casas quando, por volta das 16h, começou a precipitação. Segundo ela, o genro saiu até a varanda e viu toda a rua alagada. Segundos depois, a enxurrada começou a entrar na casa. A idosa afirma que parecia uma “cachoeira” de lama e água. 



Em poucos segundos, a água tomou conta do imóvel, invadindo os quartos e chegando a aproximadamente um metro de altura. As marcas na parede mostram a força com que a enxurrada atingiu a residência. “A geladeira começou a flutuar e eu pensei que a gente ia morrer aqui dentro”, relata os momentos de tensão. 


Por conta do medo, a idosa, que é diabética, tem um dos pés amputados e precisa de cadeira de rodas para se locomover, entrou em estado de choque. Com a água dentro e fora de casa, a porta do imóvel não abria, sendo que alguns vizinhos precisaram arrombar para retirar a família às pressas. A idosa precisou ser carregada para fora do imóvel. “Foi me dando uma aperto no peito, as pessoas chegavam para conversar comigo e eu não conseguia reconhecer. Acho que perdi os sentidos de tão nervosa que eu fiquei”, afirma.



A idosa foi levada de ambulância para atendimento médico e recebeu medicamentos para controlar o nervosismo e foi liberada ainda durante a noite. Vilma Estanislau Alves afirma que o medo que sentiu durante os minutos em que a água começou a tomar conta da casa era o de morrer junto com a família. “Nunca imaginei que fosse acontecer isso”, relata, citando que alguns vizinhos já tiveram problemas com alagamentos durante as chuvas, mas que nenhum foi tão grave quanto esse, em que a água chegou até a cintura. 


Muito emocionada, a idosa chorou enquanto conversava com a reportagem, já que ainda não conseguia acreditar que tudo o que a família tinha passado nas últimas horas. Uma das filhas, que está grávida e estava em uma reunião de escola durante a chuva, perdeu todas as coisas do bebê. “Eu não estou acreditando. Coisas que a gente levou três anos para pagar a gente perdeu em segundos”, relata, citando uma máquina de lavar comprada recentemente e que eles ainda estão pagando as parcelas. 


De acordo com informações da Defesa Civil, a estação do Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná), que fica na zona sul de Londrina, registrou apenas 3,6 milímetros de chuva. Entretanto, na região do Novo Amparo, o volume foi muito maior. A pasta ainda não fez a estimativa do volume de chuva que caiu na região.


Eder Martins, coordenador adjunto da Defesa Civil, explica que uma chuva forte e isolada que atingiu a região causou os transtornos, o que foi agravado por conta de obstruções nas canaletas e valas por onde a água passa.


Quando a chuva atingiu a parte mais alta do bairro, próximo a uma linha férrea, a água ganhou força, já que há um declive de cerca de 30 metros, e desceu levando tudo o que via pela frente, atingindo de maneira abrupta as casas da Rua Maria de Jesus, além de algumas outras no entorno. 



Martins explica que as equipes ficaram no local até a madrugada e levaram cestas básicas e colchões para que eles pudessem passar a noite. Em parceria com a Secretaria de Obras, as residências passaram por uma avaliação estrutural. Em uma das casas, a água causou uma grande rachadura na parede do quarto, o que motivou a interdição do cômodo. 


Graziele Alves, 39, mora na casa ao lado da mãe, Vilma Estanislau Alves, explica que eles perderam tudo, desde documentos até móveis, como guarda-roupa, sofá e cama. As roupas da família estão todas sujas, sendo que a igreja que eles frequentam vai fazer um mutirão para ao menos lavar as peças para que eles possam usar. “A gente não consegue nem raciocinar direito com o que está acontecendo. A gente não dormiu essa noite de preocupação”, relata.


Com um filho autista em casa, de apenas nove anos, ela conta o sufoco durante o temporal, em que a criança repetia por diversas vezes que eles iriam morrer. Durante a manhã, o pequeno estava lavando alguns de seus brinquedos que estavam cheios de lama. “Minha irmã começou a fazer o enxoval dela agora e perdeu tudo”, lamenta. 



Alves afirma que qualquer doação, seja em dinheiro ou em móveis, para que eles possam, aos poucos, retomar a vida é muito bem-vinda. Quem tiver interesse em fazer uma doação pode entrar em contato com ela pelo telefone (43) 98433-8075. O número de telefone também funciona como chave PIX, então qualquer doação em dinheiro pode ser encaminhada para a família. 


Representantes das secretarias de Educação e Saúde estiveram no local para identificar as demandas por parte das famílias atingidas. A Educação vai fornecer novos materiais escolares e uniformes para as crianças e a Saúde identificou a necessidade de repor receitas médicas e medicamentos controlados que foram levados pela água.


O secretário municipal de Assistência Social, Cláudio Melo, também esteve no local e disse que a pasta ainda vem contabilizando o número de atingidos pela chuva, mas a estimativa é de que seis famílias foram as mais afetadas. No momento, segundo ele, as pessoas devem permanecer nas casas, já que não há um risco imediato.


Algumas das famílias atingidas trabalhavam com a produção de salgados em casa, mas perderam todo o material com a chuva. Por isso, o secretário explica que uma equipe da pasta está fazendo a triagem para que as pessoas afetadas possam receber um benefício para que consigam se manter até o retorno ao trabalho. “A gente quer encaminhar isso hoje para pagar o quanto antes”, explica. 


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