Pesquisar

ANUNCIE

Sua marca no Bonde

Canais

Serviços

Publicidade
imigrantes da Ilha japonesa

'Berço' dos okinawanos em Londrina, Vila Nova tem 10% da população amarela

Bruno Souza - Redação Bonde
29 dez 2025 às 13:53

Compartilhar notícia

Divulgação/ Arquivo ACROL
siga o Bonde no Google News!

Lar histórico da imigração japonesa em Londrina, especialmente de famílias vindas da província de Okinawa, a Vila Nova (Região Central) mantém uma característica única dentro do mapa étnico-racial do município. Dados do Plano Diretor mostram que o bairro concentra 10,31% da população autodeclarada amarela, índice que o coloca como o terceiro maior de Londrina nesse recorte e o único do Top 3 a registrar aumento proporcional entre 2010 e 2022. 


Esse resultado pode estar diretamente ligado à história da ACROL (Associação Cultural e Recreativa Okinawa de Londrina), fundada há 70 anos e instalada na rua Jaguaribe, no coração do bairro.

Receba nossas notícias NO CELULAR

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp.
Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.


Segundo o levantamento, a Vila Nova passou de 713 moradores amarelos (10,02%) em 2010 para 584 (10,31%) em 2022, um crescimento proporcional de 2,9%, mesmo com a redução do número absoluto de habitantes. Nos outros bairros com maior presença dessa população, o movimento foi inverso. No Quebec (Região Central), a proporção caiu de 12,61% para 12,28%, enquanto no Petrópolis (Região Central) houve retração de 11,12% para 10,21%.


Divulgação/ Arquivo ACROL

Relação entre o bairro e Okinawa


Para Luiz Shiroma, presidente da ACROL até o fim de 2025, essa concentração não é casual. A Vila Nova acolheu dezenas de okinawanos, que saíram do Japão com a promessa de uma vida econômica mais equilibrada no Brasil, após os reflexos da Primeira Guerra Mundial. A imigração se intensificou após a Segunda Guerra.


“Os primeiros imigrantes de Okinawa chegaram a Londrina em 1934. Eles se estabeleceram aqui na Vila Nova porque a família Oguido morava na região. Eles que doaram este terreno para a construção da nossa sede”, explica. 


Segundo ele, a presença okinawana antecede, inclusive, a formalização da associação, que opera oficialmente desde 1955. “Eles chegaram bem antes. A gente está desde o começo. A minha família mesmo chegou em 1958. Meus pais moravam aqui ao lado e começaram a participar do clube a partir de então.”


Divulgação/ Arquivo ACROL

Kenjinkai


Shiroma ressalta que a ACROL não é apenas um clube, mas funciona como um "kenjinkai", ou seja, associação formada por imigrantes e descendentes de um mesmo estado japonês. Diferentemente de outras instituições recreativas, a ACROL tem critérios específicos e invioláveis para aceitar novos membros.


“O pessoal que veio do Japão se reunia por estado. É diferente da Acel [Associação Cultural e Esportiva de Londrina], por exemplo, porque lá eles reúnem todo mundo. A gente é uma associação de Okinawa. Então, ainda mantemos os descendentes de lá”, detalha Shiroma. 


Para se associar, é necessário ter alguma relação com Okinawa, embora atividades culturais sejam abertas a não descendentes. “Você vai ver que há muitos brasileiros aqui que não são descendentes. Eles podem participar de atividades, mas não podem se associar.”


Atualmente, a ACROL reúne cerca de 250 famílias, número que pode ser maior quando considerados filhos e netos que formaram novos núcleos familiares. A anuidade é simbólica, e o clube mantém uma agenda intensa de atividades culturais e sociais, como o Bonenkai, confraternização de fim de ano; o Shinnenkai, abertura do ano; o Tushibi, que são festas de homenagem a idosos de 73, 85 e 90 anos ou mais; além do Okinawa Matsuri, do Undoukai e de atividades regulares com o sanshin (instrumento musical), karaokê e ações voltadas à terceira idade.


Divulgação/ Arquivo ACROL

Reformulações na ACROL


Um dos responsáveis por impulsionar o clube ao longo das décadas foi Roberto Kanashiro, 78 anos, médico, ex-vereador do município e ex-diretor de esportes da associação. Sansei (3ª geração), por parte de mãe, e nissei (2ª geração), por parte de pai, e natural de Andirá (Norte Pioneiro), ele chegou a Londrina em 1975, assumindo funções na ACROL três anos depois. 


“Quando eu comecei, em 1978, havia apenas 120 associados. Antes, o clube funcionava basicamente com o tanomoshi”, relembra. O tanomoshi, semelhante a um consórcio, era fundamental, diz ele, para a sobrevivência econômica dos japoneses recém-chegados. “Os imigrantes que vieram de Okinawa com dificuldades financeiras se organizavam em reuniões mensais para ajudar a alavancar os negócios. Esse tanomoshi bancou o início da atividade comercial da maioria dos sócios.”


Roberto Kanashiro, ex-vereador de Londrina e um dos responsáveis por reformulações na ACROL Bruno Souza - Redação Bonde
Sede da ACROL, ainda de madeira Divulgação/ Arquivo ACROL

Preservação da cultura


Kanashiro relembra que a identidade cultural da ACROL ganhou força há alguns anos, quando a diretoria decidiu investir nas características típicas da província, por meio de apresentações com dança e música. “A parte cultural deu uma alavancada a partir de 2008, quando começamos com o grupo de taiko de Okinawa, o Ryukyu Koku Matsuri Daiko. Isso anima toda festa grande.” 


Para ele, preservar a cultura okinawana no Brasil também é uma forma de resistência. “Okinawa era um reino independente, chamado Ryukyu, e tinha língua, história e costumes próprios. No domínio japonês, foi proibido falar o okinawago [língua de Okinawa]. Aqui no Brasil, a gente tenta preservar a língua e a cultura.”


De acordo com Kanashiro, por mais que tenha havido uma tentativa de apagamento histórico da ilha, o Brasil se tornou um verdadeiro celeiro cultural de Okinawa, que insiste em resistir por meio do conhecimento, repassado de geração em geração.


“Vieram 781 imigrantes no primeiro navio. Desse total, 325 eram de Okinawa. Hoje, estima-se que existam mais de 400 mil okinawanos no Brasil”, afirma. Atualmente, segundo ele, há 41 associações okinawanas espalhadas pelo país. “A maior é a de São Paulo. A de Londrina é a maior e mais antiga do Paraná, inclusive maior que a de Curitiba.”


Divulgação/ Arquivo ACROL
Divulgação/ Arquivo ACROL

Nova geração de okinawanos


A história de continuidade ganhou um novo capítulo no dia 7 de dezembro, quando Thayse Oguido, 38 anos, assumiu a presidência da ACROL, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo em 70 anos. Eleita por aclamação, com apoio de Shiroma, ela simboliza a transição geracional dentro da associação. 


“É com muita alegria que eu aceito essa função. A ACROL é muito especial para mim. É aqui que eu fortaleço as minhas raízes okinawanas e onde encontro a minha família”, afirmou Thayse, durante o discurso de posse. Neta de fundadores, ela cresceu acompanhando a rotina do clube. “Meus avós ajudaram a fundar a associação. Meus pais são muito ativos, então cresci aprendendo.”


Para Thayse, o desafio agora é manter viva a tradição sem perder o diálogo com os mais jovens. “Estamos na época de sucessão e sucessão, para mim, é unir tradição, sabedoria e inovação. Que a gente não perca as histórias de vocês, para construirmos o presente e o futuro.”


Da esquerda para a direita, Thayse Oguido, Luiz Shiroma e Eduardo Tominaga Bruno Souza - Redação Bonde

Disputa territorial e de influência


No extremo sul do Japão e totalmente separada da área continental do país, Okinawa, ou Reino de Ryukyu, era independente até o século XIX. Por ter uma forte relação comercial com a China e o Sudeste Asiático, desenvolveu cultura, idioma e filosofia próprios antes de ser anexada pelo Japão em 1879.


Na Segunda Guerra Mundial, após a Batalha de Okinawa, a ilha ficou sob administração dos Estados Unidos por décadas, sendo devolvida ao Japão somente em 1972. Toda essa relação de disputa territorial e cultural culminou em preconceito mútuo entre moradores da "grande ilha japonesa" e da pequena Okinawa.


"Okinawa tem uma cultura totalmente diferente, porque - como era um reino independente, chamado Ryukyu, e fazia comércio com o Sudeste Asiático, sendo protetorado da China - sofreu muita influência cultural. A língua, o costume e a história são diferentes. É uma província mais ao sul, separada das 46 outras do Japão", explica Kanashiro.


A proibição do okinawago, em consequência do preconceito, fez com que diversos países das Américas se tornassem refúgio cultural para os descendentes de nativos. "Quem quer pesquisar mais sobre a língua vem para o Brasil, vai para o Havaí ou até mesmo Bolívia e Peru, que têm agrupamentos grandes de okinawanos", diz Kanashiro.


Apesar de reconhecer as diferenças entre okinawanos e japoneses, Luiz Shiroma pondera, entretanto, que o preconceito ficou no passado.


Cadastre-se em nossa newsletter

"Havia muito preconceito, mas isso antigamente. É a mesma coisa que os japoneses casarem com brasileiros. Ou então o preconceito com os nordestinos. Hoje não existe mais essa discriminação. O que acontece é que o pessoal de Okinawa se reúne, tanto é que não há um kenjinkai como o nosso aqui em Londrina", afirma, explicando que outros estados do Japão - como Hokkaido, Fukuoka e Fukushima - também se reúnem pelo Brasil, mas não têm sede própria como Okinawa.


Membros durante o Mochyori, confraternização em que cada um leva uma comida para a celebração Bruno Souza - Redação Bonde

Últimas notícias

LONDRINA Previsão do Tempo

Portais

Anuncie

Outras empresas