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Pediatras criticam guia alimentar para crianças feito pelo Ministério da Saúde

Agência Estado
22 nov 2019 às 14:23

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Pixabay
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Bebês a partir de nove meses que não são alimentados com leite materno podem tomar leite de vaca ou somente fórmulas infantis? A discussão ganhou corpo depois de o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos, do Ministério da Saúde, abrir uma brecha para o uso de leite de vaca a partir desta faixa etária.

Lançado semana passada, o documento diz ser possível substituir a fórmula infantil por leite materno, a partir de 9 meses, caso os bebês já não recebam o aleitamento materno e seja difícil o uso de fórmulas.

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A orientação provocou uma reação imediata da Sociedade Brasileira de Pediatria. Na quinta-feira, 21, a entidade encaminhou para o Ministério da Saúde um comunicado questionando e pedindo mudanças no guia, sob o argumento de que o leite de vaca na dieta dos bebês nesta idade pode causar complicações, comprometer o crescimento e o desenvolvimento.


"O documento traz recomendações muito importantes sobre o aleitamento materno, é muito bem feito", afirma Virgínia Weffort, da Sociedade Brasileira de Pediatria. "Mas, ao mesmo tempo, inclui orientações sobre o uso de leite de vaca que não concordamos."

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Virgínia afirma que o leite de vaca tem altos teores de proteínas e sua ingestão em bebês compromete o metabolismo, aumenta o risco de obesidade e sobrecarrega os rins. Para a sociedade, o essencial seria que bebês que não podem receber aleitamento materno exclusivo tivessem acesso a fórmulas infantis.


Diretora do Departamento de Promoção À Saúde do Ministério da Saúde, Lívia Salles afirma que o documento lançado semana passada pela pasta é fruto de mais de dois anos de discussão e que, em nenhum momento, recomenda o uso do leite de vaca como primeira opção. "A cartilha foi feita para contribuir com o desenvolvimento de estratégias que promovam uma dieta saudável e equilibrada. Mas ela deve ser feita de acordo com a realidade do País", argumenta.

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Lívia conta que pesquisas realizadas mostram que 60% dos bebês brasileiros com menos de seis meses e 74% dos bebês maiores de seis meses já tomam leite de vaca. Isso se deve, sobretudo ao alto preço das fórmulas infantis. Nem todas as famílias do País conseguem arcar com o custo deste tipo de alimentação e acabam, portanto, mesmo sem recomendação médica, recorrendo ao leite de vaca.


Ela diz que, diante dessa realidade, a equipe de consultores procurou deixar claro no manual as melhores formas do uso do leite de vaca, quando fórmulas infantis ou o aleitamento não podem ser realizados. Nos casos de bebês a partir de quatro meses, o leite tem de ser diluído em água. Para maiores de 9 meses, o produto pode ser incluído na alimentação, mas dentro de um cardápio equilibrado.

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Lívia argumenta que o Brasil não está sozinho na recomendação do uso de leite de vaca. O guia alimentar do Canadá e o da Suécia já trazem essa possibilidade, a partir dos nove meses.


"E, naqueles países, a decisão não é norteada em função do preço", observa a diretora da Ministério da Saúde.

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Ela afirma que a pasta não cogita fazer alterações no guia, em função das críticas feitas pela sociedade de pediatria. Acrescenta ainda o argumento de que a Organização Mundial da Saúde recomenda que todos as cartilhas feitas por organismos públicos têm de levar em consideração a realidade do País.


A nutricionista do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) Ana Paula Bortoletto Martins avalia que o leite de vaca, de fato, não é a primeira opção para se incluir na dieta de bebês. "Entendo as queixas feitas pela Sociedade Brasileira de Pediatria, mas o documento do ministério também deixa claro que a prioridade é o aleitamento materno exclusivo. E que fórmulas viriam em segundo lugar", completa.

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Alerta


Ana Paula, contudo, chama atenção para outro risco quando não se dá alternativa para famílias: o uso inadvertido de compostos lácteos como se fossem fórmulas infantis. Esses compostos estão dispostos nas prateleiras de farmácias e supermercados ao lado de fórmulas infantis. As embalagens são muito parecidas, mas o preço é muito menor. "Muitas famílias, sem informação adequada, acabam se valendo destes preparados, na ilusão de que estão comprando o melhor para seus filhos. Como se fosse uma fórmula, mas mais barata", diz.

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Tais compostos, embora sejam muito mais baratos, levam em sua composição 51% de leite. Trazem ainda uma boa porção de açúcares e são enriquecidos com alguns vitaminas. "Eles estão longe de ser um alimento adequado para bebês e crianças", diz Ana Paula.


Esses compostos, por terem registro no Ministério da Agricultura, não são ainda sujeitos às regras que controlam a publicidade. E justamente por isso, muitas vezes trazem brindes, ou promoções de descontos. O guia faz um alerta para esses compostos, mostrando que eles estão longe de ser um substituto para fórmulas infantis.

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Além das críticas às referências ao leite de vaca, Virgínia conta que a sociedade discorda das recomendações feitas a formulação de papinhas para bebês. O guia permite o uso moderado de sal nestas refeições. A pediatra afirma, no entanto, que o ideal seria que nenhum sal fosse adicionado à dieta até um ano de idade. "Recomendamos o uso moderado, estudos mostram não haver prejuízo com essa prática", afirma Salles.


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