Quando uma caixa de papelão faz as vezes de colchão, a marquise vira teto e um ser humano busca abrigo na madrugada, os olhos de quem ainda se importa com o semelhante ficam revirados. Não só os olhos. O vendedor autônomo Gilson Rodrigues Moraes, 50 anos, vai além. "Eu me sinto aquebrantado." Morador da zona norte, percorre toda a cidade caminhando. "Eu me comovo, ajudo com comida, pergunto se está com fome, pago um prato de comida, mas sei que poderíamos, juntos, fazer mais." De seu ponto de vista, a idolatria, a ganância e a falta de educação colaboram para o quadro social. "Nosso país tem tudo para ser o melhor lugar do mundo, graças à nossa terra que tudo dá, a quantidade de água e florestas, mas o querer só pra si, deixa as coisas como estão." E acrescenta: "Assim, acabamos nos acomodando preferimos dar um dinheiro a um abraço e isso está errado."
O vendedor Carlos Soares, 42 anos, tem opinião semelhante sobre a situação de vulnerabilidade que está diante de seu cotidiano: "Não devemos julgar porque muitas vezes a pessoa está nessa situação por falta de oportunidade e por causa dos desvios de dinheiro." A estudante Anne Beatriz Ribeiro, 14 anos, diz que vê imagens assim diariamente, mas não se acostuma. "Estudamos Sociologia e a disciplina nos faz pensar sobre. Pode ser que a situação reflita uma falta de oportunidade desde a primeira infância ou uma separação conjugal, uma depressão. Pensamos sobre a causa, mas deveríamos também estudar o que pode ser feito para resolver o problema." E Anne ressente-se com o que vê. Publicado em 1940, o poema "Os ombros suportam o mundo", de Carlos Drummond de Andrade, faz parte de sua segunda fase, aquela em o "Eu era menor que mundo". Era Segunda Guerra Mundial e ele escreveu: "Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus." O Drummond social, o Drummond atemporal ainda escreve: "E o coração está seco. A guerra passou." Passou? Para o vendedor Carlos Soares não. "Hoje, estamos frios e de um modo geral a maioria nem quer pensar sobre as pessoas dormindo nas ruas, pedindo esmola e vivendo sem dignidade. Deveríamos analisar e cobrar mudanças, atitudes e também agir", pensa.
Secretaria de Ação Social na praça
De acordo com a secretária de Ação Social, Télcia Lamônica Oliveira, a abordagem a esse pessoal é um trabalho contínuo. "Tomamos conhecimento agora desse caso e vamos fazer a abordagem social. Vamos até as pessoas, fazemos a identificação e o encaminhamento, pois uma pessoa não pode morar em um espaço público e que é de todos. Tanto porque pode interferir na livre circulação, como pode estar em um local que ofereça risco, como um canteiro central, por exemplo." A secretária reconhece que a situação não é exclusiva da região central. "Nas praças e áreas centrais é mais comum em razão do fluxo da grande circulação de pessoas e isso atrai, mas há outros lugares identificados." (W.V.)
De acordo com a secretária de Ação Social, Télcia Lamônica Oliveira, a abordagem a esse pessoal é um trabalho contínuo. "Tomamos conhecimento agora desse caso e vamos fazer a abordagem social. Vamos até as pessoas, fazemos a identificação e o encaminhamento, pois uma pessoa não pode morar em um espaço público e que é de todos. Tanto porque pode interferir na livre circulação, como pode estar em um local que ofereça risco, como um canteiro central, por exemplo." A secretária reconhece que a situação não é exclusiva da região central. "Nas praças e áreas centrais é mais comum em razão do fluxo da grande circulação de pessoas e isso atrai, mas há outros lugares identificados." (W.V.)

Artesão armou a barraca em praça na área central e por lá vai morando
O que uma barraca no meio da praça tem a ver com todo mundo?
Recentemente, duas barracas de acampamento instaladas na Praça Willie Davids - altura do teatro Ouro Verde, tornaram-se alvo de reclamação de quem passa por lá. A reportagem do NOSSODIA esteve no local e conheceu o artesão Alisson Nascimento, 36 anos. Ele conta que chegou de Santos, litoral paulista recentemente. "Sou um artesão nômade. Toco violão, faço malabarismo, artesanato com filigranas." Nascimento comenta que sua arte tem aceitação e sobre estar vivendo de forma improvisada, responde: "Às vezes sinto falta de um conforto e quando encontro um hotel acessível, prefiro. Mas nós, artistas somos desapegados, largamos tudo para viver assim, felizes. Quero conhecer as cachoeiras da região e se pedirem para a gente desmontar, desmontamos. Não vamos brigar, somos paz e amor, mas não entendo porque criar caso. A barraca está até camuflada com o verde. Vi uma mulher batendo foto, mas não estamos atrapalhando. Tem outras coisas pra galera se preocupar, como o resultado das urnas", disse. (W.V.)
Recentemente, duas barracas de acampamento instaladas na Praça Willie Davids - altura do teatro Ouro Verde, tornaram-se alvo de reclamação de quem passa por lá. A reportagem do NOSSODIA esteve no local e conheceu o artesão Alisson Nascimento, 36 anos. Ele conta que chegou de Santos, litoral paulista recentemente. "Sou um artesão nômade. Toco violão, faço malabarismo, artesanato com filigranas." Nascimento comenta que sua arte tem aceitação e sobre estar vivendo de forma improvisada, responde: "Às vezes sinto falta de um conforto e quando encontro um hotel acessível, prefiro. Mas nós, artistas somos desapegados, largamos tudo para viver assim, felizes. Quero conhecer as cachoeiras da região e se pedirem para a gente desmontar, desmontamos. Não vamos brigar, somos paz e amor, mas não entendo porque criar caso. A barraca está até camuflada com o verde. Vi uma mulher batendo foto, mas não estamos atrapalhando. Tem outras coisas pra galera se preocupar, como o resultado das urnas", disse. (W.V.)