Logo na entrada do Pavilhão Internacional do Parque Governador Ney Braga era possível ouvir um ruído tomar conta do espaço. O barulho era produzido por centenas de máquinas de tatuar funcionando ao mesmo tempo. Em contato com a pele, a ponta da agulha vai unindo traços e eternizando a arte nos corpos de quem se dispõe a fazer uma tatuagem pela primeira vez ou daqueles que tentam encontrar mais um espaço para um novo desenho. A 2ª edição da Expo Tattoo reuniu em Londrina neste feriadão mais de 300 tatuadores locais e de várias partes do País e do exterior.
O brasileiro Toshio Shimada, 43 anos, tatuou seus primeiros desenhos aos dez anos. A "tela" era o pai dele, que também era tatuador e passava ao filho os seus conhecimentos. Aos 15 anos, Shimada passou a viajar pelo interior de São Paulo e do Paraná difundindo o seu trabalho como tatuador até que os pais decidiram se mudar para o Japão. Foi na terra natal de seus avós que ele pôde se aprimorar nas técnicas e conhecimentos sobre a arte e aprendeu a técnica do "tebori", que consiste em tatuar à mão, utilizando varetas de bambu com agulhas nas extremidades. Ele percorreu o mundo desenhando sobre a pele de asiáticos, europeus e norte-americanos.
Entre os tatuadores, Shimada é conhecido e respeitado e tornou-se uma referência importante no estilo oriental. Há três anos, retornou ao Brasil e mantém um estúdio no bairro da Liberdade, em São Paulo, onde trabalham 15 tatuadores. Muito falante, o tatuador chama a atenção por não ter nenhuma tatuagem em seu corpo. "Meu pai tem 75 anos e tem o corpo todo tatuado. Vi todas as dificuldades pelas quais ele passou por ter a pele tatuada, me lembro de todas as coisas que não pude fazer por meu pai ser assim. Não quis fazer tatuagem em mim", explica. "A tatuagem não preenche nenhuma necessidade, não é uma coisa importante. Para mim, é um meio de vida. Sou profissional, não estou brincando de ser tatuador. Meu lado é mais empresarial que artístico. Sou empresário e produtor. Pego os artistas que fazem tatuagem e produzo a arte deles. Tem muito tatuador que me odeia por eu pensar assim, mas isso não tem importância para mim."
Shimada guarda na ponta da língua informações que justificam seu interesse pelo mundo da tatuagem. De acordo com ele, o Brasil é o segundo maior mercado de tatuagem do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e a tendência de crescimento é enorme. "Temos uma população grande e jovem, com um grande número de pessoas entre os 20 e os 45 anos de idade. É um mercado muito bom", prevê. (Simoni Saris/Grupo Folha)
Novos talentos
Uma das promessas do estúdio de Shimada é Thiago Angelini, 25, que apesar de bem jovem faz parte de um grupo restrito. Ele é um dos poucos tatuadores brasileiros especializados em animes e comics e sua arte é reconhecida pela fidelidade às cores, formas e expressões dos personagens que desenha, precisão que vem de muito estudo e empenho. "Estudo bastante a cultura japonesa e presto muito atenção aos episódios, porque o personagem não tem só a forma, tem alma também e eu tento capturar isso. Assisto aos desenhos japoneses todos os dias porque meu trabalho não é só reprodução, é criação também", contou o jovem, que há dois anos vive apenas com o que ganha como tatuador. "Comecei há sete anos. Não sabia desenhar nem tatuar. Um amigo me ensinou e eu usava minha própria pele para aprender."
O catarinense Rafael Vieira, 35, é autodidata na arte da tatuagem. Em Joaçaba (SC), onde nasceu e vive até hoje, não havia um tatuador que pudesse lhe ensinar e a alternativa era recorrer a todo tipo de material, impresso e virtual, para aprender até ganhar visibilidade com as tatuagens no estilo "old school", sua especialidade e que já lhe rendeu 16 troféus em campeonatos dos quais participou no País. "Fui comprando coisas, lia muito e, quando encontrava um tatuador, aprendia um pouquinho com um, um pouquinho com outro. Era bem mais difícil naquela época, não tinha muito equipamento disponível, tinha que saber soldar a agulha, regular a máquina. Hoje é possível comprar um kit pronto", comparou.
Para os tatuadores, os eventos que reúnem em um mesmo espaço um grande número de profissionais, de diversos estilos e localidades, são o meio ideal de ganhar visibilidade e trocar experiências. Para o público, especialmente os aficionados pela arte, as exposições são a oportunidade de ter contato com o universo da tatuagem e conhecer um pouco mais sobre a diversidade de estilos e tatuadores. A cabeleireira Joana Vergara mora no interior de São Paulo, veio a Londrina passar o feriadão na casa de amigos e aproveitou para conhecer a Expo Tattoo. Com oito tatuagens espalhadas pelo corpo, ela pensava onde iria fazer o nono desenho. "Dizem que não pode ter tatuagem em número par e eu resolvi acreditar. Por isso, depois da segunda, não parei mais. Essa exposição é muito legal porque reúne vários estilos. Está difícil me segurar", comentou ela. (S.S.)
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