Com as altas temperaturas dos últimos dias, o londrinense nunca deu tanto valor à sombra de uma árvore. A aposentada Maria Conceição, 74 anos, mora no Alto da Boa Vista e ainda pega no batente. Até a hora do almoço, trabalha em uma chácara e, tanto na ida como na volta para casa, segue caminhando. Um dos trechos inclui a avenida Lindalva Silva Basseto e debaixo de 37ºC graus a idosa admite que as árvores fazem muita falta quando o sol arde na pele, mesmo debaixo do guarda-chuva que usa. "Vou andando devagar, parando de pouquinho, e se tivesse mais sombra, não cansava tanto. Na chácara tem árvore, flor e é bem mais fresquinho". O casal de aposentados José Inocêncio da Silva, 67 anos, e Varin Vicente, 65, explicam que no bairro onde moram, o Alto da Boa Vista, não há mercado. "Por isso, a gente vai a pé até o mercado do outro bairro e pede pra entregar aqui em casa". Ao todo, caminham 10 quilômetros e enquanto dividem o mesmo guarda-chuvas que faz o papel de amenizar o sol, reclamam. "É muito trecho descampado e onde tem matagal, é muito perigoso. Mas não sei quando isso vai melhorar porque a gente mora aqui desde 92 e não tem escola, não tem mercado, muito menos árvore."
O casal José e Varin reclama: "É muito trecho descampado"
O diretor operacional da Secretaria de Meio Ambiente (Sema), Marcos Vinícius Tersariol, admite que há muito o que fazer pela cidade. "Em alguns bairros, temos que melhorar muito. Fizemos um diagnóstico e no ano de 2013 o plantio foi foi de 1947 árvores e 3073 doações para a população fazer o plantio. Em 2014, plantio de 5645 e 3521 doações. E em 2015, já foram plantadas 2337 e 7190 doações para plantio". Tersariol enfatiza que em regiões como o Residencial Vista Bela, a maioria do que foi plantado se perdeu. "Sofremos com a depredação e queremos fazer um trabalho de conscientização para conquistar o apoio das pessoas, pois os benefícios de uma árvore são muitos. A ideia para o Vista Bela e avenidas como a Maringá e Saul Elkind é de fazer um projeto de revitalização. Devemos cortar as que precisam ser cortadas, arborizar com um projeto paisagístico pois há pontos que me assustam. Nossas pernas são pequenas ainda e a cidade está realmente desprovida, por mais que estamos fazendo". Tersariol destaca ainda que o projeto Bandeira Verde está em vigor. "As pessoas não deveriam enxergar o ato de plantar uma árvore na porta de casa como obrigação. Notificamos, mas temos poucos fiscais e o ideal seria que as pessoas se conscientizassem do quanto isso faz bem para a qualidade de vida da cidade e do ar. As árvores refrigeram as temperaturas e também servem de alimento para pássaros. Porém, muitas pessoas ainda reclamam da sujeira das folhas nas calçadas, que a árvore tampa a fachada, quebra calçada, impede vaga, mas é necessário ponderar. Os benefícios são maiores", enfatiza. (WV)
Ciente do calor, a moradora do Jardim Porto Seguro, na zona norte, Aurini Carneiro, 50 anos, sai de casa prevenida para ir às compras ao lado da filha, a estudante Emily Vitória da Silva, 13 anos. Sombrinha e uma garrafa de água são itens obrigatórios para mãe filha, que caminham mais de uma hora pela avenida Saul Elkind. "Tem alguns trechos que faz muita falta uma sombrinha natural. A gente sai prevenida porque o sol queima fácil."
A empregada doméstica Lucélia da Silva, 59 anos, mora no jardim Maria Cecília e conta que nos dias em que a temperatura sobe, ela sofre ainda mais com a pressão alta. "A sensação é de mal estar", resume. Isabel Cristina Santana, 50 anos, é funcionária pública e vizinha de Lucélia. Diz que sabe o bem que uma sombra faz. "Nosso abacateiro tem 33 anos e faz um bem danado. Até a casa fica mais arejada." Moradora do Jardim Bavaria, Zeni Rodrigues da Silva, 44 anos, escolhe caminhos mais sombreados no trajeto que faz para apanhar a neta na escola, que fica no Violim. "Dá impressão que o sol vai derreter a pele da gente." Por isso, Zeni coordena empurrar o carrinho e segurar o guarda chuva enquanto caminha para se proteger de tanto sol.