Se já está difícil se acomodar dentro de casa, debaixo da coberta quentinha, sobre uma confortável cama, imagina para quem não tem um teto para se proteger dos ventos gelados da madrugada e se aquecer nesta época do ano, quando as temperaturas se aproximaram dos 2 graus em Londrina? Essa é a realidade de muitas pessoas, que sequer tem um agasalho para vestir e buscam alternativas distintas para diminuir os efeitos do frio nas ruas.
Durante a tarde da última quinta-feira, os moradores de rua não demostravam qualquer preocupação. Para a maioria, o único pensamento era de como conseguir dinheiro. Dinheiro para a compra de drogas e bebidas alcoólicas. "Eu bebo pinga para esquentar", disse Wellington Ricardo de Oliveira, 26 anos, que passa as noites frias ao lado do Pronto Atendimento Infantil (PAI), no centro de Londrina. "Pelo menos no PAI é mais seguro, sempre tem alguém por perto", explica o homem.
Wellington foi criado em Bauru-SP e já adulto foi para Cianorte-PR em busca da mãe, que havia se divorciado, com quem não se encontrava há anos. "Eu cheguei a morar alguns meses com ela lá. Mas minha mãe faleceu e, como não me dava bem com meu padastro, fui embora da casa", conta ele.
"Tenho experiência em olaria e vim para Londrina em busca de emprego, pois me informaram que tinha bastante trabalho em Jataizinho, que fica pertinho daqui. O problema é que acabei perdendo meus documentos e tudo ficou mais difícil. Fiquei sem emprego e então passei a morar na rua", relembrou o jovem.
Wellington contou que estava há duas semanas sem tomar banho. Situação comum entre os moradores de rua, relata ele. "Não é todo mundo que abre sua casa ou seu comércio para a gente. Ficamos muitos dias sem tomar banho. Mas hoje eu tive sorte, tomei banho em uma igreja na Vila Casoni e ainda ganhei almoço, roupas e cobertores. Mas não sei como vou me virar daqui para frente. Vou ter que continuar pedindo dinheiro e comida nas ruas", admitiu ele. Para Adalto Rodrigues, 67 anos, que vive nas ruas há uma década, o maior problema é a falta de roupas para se aquecer. "Alimentos, lugar para passar a noite e até transporte não são difíceis de conseguir. Nossa maior dificuldade é encontrar roupas, assim como calçados adequados e cobertores", explicou.
Um dos maiores problemas (P.M.)
Viciada há 23 anos, sem perna há 13
Mulheres também fazem parte do grupo de moradores de rua. Um dos casos mais tristes é de Silvana (o sobrenome não será divulgado), de 36 anos. Ela revela ser usuária de drogas 23 anos. Sobre o frio? "Nem sinto", rebate. "Hoje eu só uso crack. Moro aqui mesmo, mas tenho família em Londrina, sou mãe de quatro filhos", contou.
Silvana perdeu um dos pés após ser atropelada por um trem, na zona norte da cidade. Silvana improvisou um pedaço de plástico no lugar, vestido por um sapato, amarrado com uma borracha no que sobrou de uma prótese. (P.M.)
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Há 30 anos vendendo redes na região leste de Londrina, atualmente o ambulante Geraldo Soares Cavalcanti oferece seus produtos próximo ao semáforo da Avenida Dez de Dezembro, ao lado do terminal Rodoviário. Entre uma oferta e outra do produto para os pedestres e motoristas, ele observa a situação de moradores de rua que aproveitam o espaço de um antigo posto de combustíveis, há anos desativado, para se abrigar e usar drogas.
"Choro muito vendo essas pessoas numa situação dessa. São de carne e osso como eu, fico imaginando o sofrimento nesse frio", disse ele. "Tem até gente que vem para esse lugar (posto desativado) com seus filhos crianças. Ficam usando crack e não conseguem mais ir embora por causa do vício. Aí o pessoal da Prefeitura vem e resgata a criança e os pais continuam nessa vida aqui", relatou o ambulante emocionado. (P.M.)
Atendimento social
Londrina possui o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (POP), na rua Dib Libos, esquina com avenida Celso Garcia Cid. No local, a população em situação de rua recebe atendimento social, psicológico e pedagógico, pode participar de grupos de terapia ocupacional e oficinas de artes, além de um espaço para higienização e lavagem de roupas. O telefone é 3378-0417.
Para assegurar a saúde e vida das pessoas em situação de rua, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social, iniciou a Operação Noite Fria, em parceria com a Associação Projeto Pão da Vida, até o mês de setembro com o acolhimento de desabrigados. As entidades parceiras da Prefeitura, responsáveis por oferecer o acolhimento institucional de pessoas em situação de rua, aceitam doações de alimentos, roupas e produtos de higiene pessoal. A equipe da Secretaria realiza buscas mediante solicitação da comunidade. Os telefones são (43) 9991-4568 e 9996-3497.
Pão da Vida
Rua Bélgica, 959 – Jardim Igapó
Fone: 3343-3529
Casa do Bom Samaritano
Rua José Fierli, 153 – Vila Marízia
Fone: 3339-1379.
Serviço de Obras Sociais de Londrina (SOS)
Rua Jaguaribe, 350 – Vila Nova
Fone: 3024-4420