Sem tirar nem por, Calçadão de Londrina mais parece uma feira a céu aberto. Na visão de quem o frequenta, "a casa da mãe Joana", numa definição que em muito se distancia de sua proposta. Em 1977, foi criado para servir de lazer aos londrinenses e ponto turístico a seus visitantes. Algo aconteceu no meio do caminho. Isso é fato. Nos dias atuais, pode-se afirmar que o fluxo de consumidores e a circulação de dinheiro atraem um sem fim de vendedores. De modo desordenado, artesãos, ambulantes legalizados ou não dividem o espaço e opiniões. NOSSODIA acompanhou um pouco da rotina da via, que é um dos cartões postais da cidade.
Numa bancada improvisada, um senhor demonstra como picar e descascar legumes com mais variedade. Na outra esquina, há bilhetes para concorrer a sorteios valendo casa, carro, moto. Haja sorte e também cartomantes que se oferecem para ver o futuro. Com um pedido de licença bem educadinho, é possível entrar em uma das farmácias do Calçadão da cidade de Londrina e comprar o remédio necessário. Misturados aos ambulantes regulamentados, os vendedores que não o são engrossam o caldo e oferecem de tudo. De tratamento de canal à oferta de compra do ouro - que supõe-se que o cidadão guarda em casa, há ainda mais para ver. Entre um gole e outro de água, a vendedora molha o legume e a verdura.
Quem nunca foi abordado para adquirir um chip para o smartphone? Tem de todas as operadoras e enquanto o palhaço do Mensalão faz sua performance e aguarda o cachê, é possível ver como o milho está na preferência. Pra comer ou pra embrulhar, o cheiro vai longe, refogado, cural ou pamonha, e quadra por quadra, o comércio formal e o informal se confundem. A promoção de meia, seis por R$10, não é a única. Os paninhos de prato, as carriolas com frutas e legumes, assim como o pão caseiro e a antena digital dividem o consumidor. Há orquídeas e, na carona com o Calçadão, numa perpendicular à via, os passarinhos estão à venda. Se estiver precisando ouvir uma palavra de fé, tem pregação ao ar livre também por lá. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)
Olha o chip
Quem compra e quem vende convive em harmonia, mas não é assim para todo mundo – já que muitas vezes a liberdade de um invade a do outro. A desempregada Luciana Piazzalunga, 45 anos, observa um ambulante que grita e faz de uma garrafa megafone, na tentativa de atrair mais. Piazzalunga já teve comércio. Hoje vende mandioca e conta que costumeiramente é abordada por pessoas desempregadas interessadas em vender sua mandioca. "Já tive comércio, tenho curso de manipulação de alimentos, sou promotora de vendas, mas não podia mais esperar." Há oito meses, ela vende mandioca crua. "Vendia de porta em porta, mas não aguentava mais andar tanto e até pensei em montar um negócio, mas é muita despesa com água, luz, aluguel. Sou bem realista e como tenho o dom de conversar e negociar e filho dependente é uma questão de sobrevivência, porque no fundo no fundo, não é de todo bom ficar assim, exposto a tudo e todos". Por trás do carrinho de milho, a jovem Amanda Arendt, 24 anos, tenta ganhar seu pão. "Eu fazia diária. Uma senhora morreu, a outra foi tratar o marido doente em Curitiba. Eu tenho um filho de sete anos, estou com braços e pernas queimados de correr da CMTU, mas não encontrei outra alternativa". A auxiliar administrativa Aline Oliveira, 35 anos, considera um direito, a venda no Calçadão. "São milhões de desempregados. Só em volta da gente dá pra entender e entendo que estão trabalhando. São produtos acessíveis, que foram pagos e considero um ato desumano quando são levados dos ambulantes", pensa. A técnica em laboratório aposentada Maria Aparecida de Moraes, 53 anos, comunga do pensamento. "É feio, fica feio assim, mas fico com dó. Sem contar que as verduras são mais bonitas e mais baratas que no mercado. Deviam regularizar a situação, cobrar impostos e deixar a situação menos desigual perante os comerciantes", reflete. (W.V.)
Resposta
A CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) foi procurada várias vezes, mas não se pronunciou a respeito. A Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), por suas vez, por meio de nota, se manifestou: "A Acil acredita que a presença crescente do comércio ilegal nas áreas destinadas ao trânsito de pedestres é uma situação que merece amplo debate envolvendo a sociedade civil e as autoridades. A Acil, por diversas vezes, solicitou à Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização a intensificação das operações de fiscalização ao comércio ilegal na cidade. A entidade coloca-se sempre à disposição para contribuir com o desenvolvimento de soluções que garantam os interesses daqueles que pagam impostos, taxas e licenciamentos sem, contudo, ignorar todos os aspectos humanos e sociais que envolvem o fenômeno. É importante ressaltar ainda que a Acil mantém o permanente esforço de incentivo à formalização dos pequenos empreendedores, buscando desburocratizar, simplificar e baratear os processos de registro e funcionamento das empresas", diz a nota. (W.V.)