Ícone do lazer londrinense, o Lago Igapó foi inaugurado em 1959. O cartão-postal da cidade já passou por revitalização na década de 1970 e chegou a ser esvaziado em 2011 para limpeza completa. Agora, a estratégia para "salvar" o Igapó é diversificar as iniciativas. Uma delas é o despejo de esferas com leveduras e lactobacilos para eliminar coliformes fecais e outros materiais orgânicos. Outra é insistir na conscientização dos moradores e visitantes para cuidar do espaço.
As alternativas foram discutidas em debate organizado pelo Geama (Grupo de Estudos Avançados sobre o Meio Ambiente), realizado no dia 14 de setembro no Anfiteatro do CCH (Centro de Ciências Humanas), na UEL (Universidade Estadual de Londrina). De acordo com o assessor para assuntos estratégicos da Prefeitura de Londrina, Luiz Figueira de Mello, a revitalização do Lago Igapó só será possível "buscando o problema na origem". Por isso, a ideia é cuidar das nascentes que pertencem à bacia hidrográfica do ribeirão Cambezinho.
A pró-reitora de Extensão da UEL, Mara Solange, destacou a importância da iniciativa. "É preciso cuidar do Igapó de maneira imprescindível." Uma ação que será colocada em prática, segundo Mello, é o Projeto Pró Igapó, que consiste no despejo de esferas com leveduras e lactobacilos que vão liberar o produto com as bactérias para a limpeza das águas na extensão do ribeirão Cambezinho, que forma os lagos Igapó. Ação similar, aponta, foi usada para ajudar na despoluição do rio Tâmisa, em Londres. "Não estamos inventando nada", explica. O procedimento também já foi usado pela Embasa (Empresa Baiana de Água e Saneamento).
O complexo formado pelos quatro lagos Igapó enfrenta um processo de assoreamento em que o acúmulo de material biológico e inorgânico depositado no fundo torna o espelho d’água cada vez mais raso, a ponto de formar ilhas.
Mello exibiu ações e projetos que estão em debate para fazer de Londrina uma metrópole sustentável. Ele argumentou que só com a gestão compartilhada do poder público e da sociedade civil organizada será possível revitalizar o Igapó. "Temos ao longo do tempo muito descaso com esse patrimônio e a solução não se dá só com o poder público", alerta.
Por 12 meses, entidades e empresas vão financiar o projeto de revitalização do complexo. O investimento será de mais de R$ 1 milhão e não haverá aporte financeiro por parte da administração municipal. "O Executivo muitas vezes não tem recurso financeiro, mas tem o maior recurso que é o poder de articulação. Esse papel que estamos exercendo", diz.
Despejo dos microrganismos
O despejo dos microrganismos biorremediadores ocorreu neste domingo (23), durante o evento Abraço no Lago. As esferas de argila com as bactérias foram produzidas com o auxílio de alunos da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná). A expectativa da empresa que fornece a tecnologia é que em 45 dias já seja possível ver a diferença na qualidade da água.
Análises químicas, físicas e biológicas serão feitas durante o processo de limpeza pela UEL, UTFPR, IAP (Instituto Ambiental do Paraná) e Iapar (Instituto Agronômico do Paraná). Cid Marcos Simões, responsável pela empresa que desenvolveu as bolas de argila, explicou que a tecnologia existe há três anos e que o conceito das "mudballs" (bolas de lama) foi desenvolvido para a despoluição e revitalização de corpos hídricos. "As ‘mudballs’ são micro-organismos probióticos. O efeito que levamos para a recuperação dos corpos hídricos é o mesmo que usamos na saúde humana, quando a pessoa está ruim do intestino ou do estômago", explicou. Os microrganismos restauram o equilíbrio da microflora do ambiente hídrico.
Já o professor de zoologia da UEL, Gustavo Teixeira, acha precoce despejar toda essa quantidade de "mudballs" no lago. Ele, que trabalha com invertebrados de riachos, acredita que não há estudos suficientes que comprovem que não há riscos para esses animais e tem ressalvas quanto ao uso da nova tecnologia. "Há revistas científicas confiáveis que mostram que essa tecnologia não forneceu os resultados esperados. Não há uma garantia de que não há risco ambiental", afirmou. (I.F.)