Pode ser sobrado, casa térrea, original ou reformada. Lá estão as cadeiras na área, bem na frente da casa, postas para contemplar a praça, um pequeno jardim, ou até mesmo as outras casas no lado oposto e também quem passa pela via. Reportagem do NOSSODIA circulou pelo conjunto da Café e conheceu um pouco das histórias por trás de cada portão.
"Tomar uma fresca". É unânime a resposta dos moradores sobre a serventia dos assentos. Tem sofá, banquinho, cadeiras do tipo macarrão e de ferro, com direito a almofadinha. O fim da tarde é o momento em que mais se encontra os donos dos tronos, mas nunca é cedo ou tarde para uma prosa e um momento de pausa e descanso, dizem os moradores. Erozima Aparecida de Souza Helene, 57 anos, conserva as cadeiras na área da garagem. "Eram de minha sogra e essas já tem mais de 20 anos. Restaurei porque são muito boas e no domingo formam uma roda boa. Pego as de vime que ficam dentro de casa, minha netinha Luisa fica em volta e é uma grande alegria, principalmente para os que moram em apartamento e se sentem muito à vontade", diz.
Dona Francisca Pereira da Costa, 89 anos, é mineira de Pousa Alegre e conserva a sua cadeira na frente do jardim de casa. Mora na mesma casa há 30 anos e durante os 55 anos anos de casamento, ela e o finado João Felizardo da Costa, sentavam-se lado a lado para a fresca da tarde. "Ele faleceu faz 12 anos. Preferia a banquetinha e virou herança. Um dos meus netos levou e cuida com muito amor da banquetinha. Hoje, sento para descansar. Fui costureira, faxineira, lavadeira e sinto muita dor nas costas. Mas tá bom".
É com saudade que a diarista Maria José Próspero, 52 anos, olha para o banquinho de madeira que dividia com a amiga Yolanda. "A gente se conheceu quando eu tinha oito anos de idade." Dona Yolanda faleceu há menos de um mês e ficou um vazio na amiga. "Até na hora de levantar a gente combinava porque, como o banco é leve, era perigoso virar se só uma levantasse", relembra. Com um pé de jabuticaba para fazer sombra e de testemunha, assunto era o que não faltava para uma amizade de mais de 40 anos. "Eram horas conversando das minhas artes com as dos filhos dela". A aparente tranquilidade em falar da grande amiga se rompe e Maria José revela que está difícil superar. "Toda manhã eu fazia café olhando para a janela dela, já aberta e depois vinha provar do café dela. Eu dizia que vinha picar o cartão", diz, sorrindo. "Foi ela que plantou o pé de jabuticaba. Chegou em uma lata e é mais velho que o filho dela. Ela conversava bastante com a árvore. Tomara que não sinta falta." (Walkiria Vieira/NOSSODIA)