É a bordo de sua motocicleta 150 cilindradas que o mototaxista Antonio Carlos Carvalho, 54 anos, passa a maior parte do tempo. Por dia, o profissional roda 200 quilômetros e durante a semana a média passa dos mil. Diante do vai-e-vem, Carvalho admite que chega em casa quebrado de cansaço. "Tem que me adular bastante para eu jantar, porque a vontade é chegar em casa, tomar um banho e dormir direto". De acordo com um estudo do National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (Instituto Nacional de Surdez e Outras Doenças de Comunicação), dos EUA, uma moto emite ruídos em torno de 95 decibéis (dB). Ou seja, o cansaço do trabalhador tem explicação. "A exposição prolongada ao barulho de uma motocicleta pode causar nos pilotos a Perda Auditiva induzida por Níveis de Pressão Sonora Elevados (Painpse).
A situação piora porque muitos motociclistas alteram o sistema de escapamento, utilizando ponteiras esportivas, que elevam ainda mais o nível de ruído. "A grande preocupação dos especialistas é essa perda é cumulativa", explica a fonoaudióloga Isabela Carvalho, da Telex Soluções Auditivas. Ela lembra, no entanto, que existem pessoas mais e menos suscetíveis aos altos ruídos. "O ideal é consultar um médico otorrinolaringologista para avaliar se já existe alguma perda auditiva", recomenda. Assim, dá pra entender porque a zoeira no ouvido também é um dos motivos do estresse do mototaxista. "É ronco pra todo lado. Passa escapamento aberto que não dá pra aguentar", desabafa Carvalho.
Também mototaxista, Aparecido Donizete Rossetti, 60 anos, explica que já são 29 anos pilotando a máquina. "O trânsito é muito tenso. Eu mesmo já tive dois acidentes vascular cerebral, um em 2012 e outro agora, em 2015. Mesmo assim, tenho que enfrentar o trânsito. Crio dois netos e tenho que superar o cansaço". O trabalhador explica que passa 12 horas em cima da moto por dia. "Procuro controlar o barulho que vem no ouvido. A gente passa por carro, moto, trator, atravessa a cidade e tem que se cuidar pra não ficar irritado, até porque esse barulho não tem como mudar. Mas em casa eu quero sossego. Som baixinho, silêncio e paz". O entregador José Joaquim Rodrigues, 50 anos conta que antes mesmo de completar 18 anos já rodava de moto. "O capacete abafa um pouco o som, diminui o barulho e somado ao congestionamento, aos maus motoristas, o fluxo intenso e à falta de gentileza, o barulho é um fator de estresse e quando estou em casa, quanto mais baixo o volume, melhor". (W.V)