Notícias

Qual a sua? A dor nossa de cada dia

30 jul 2017 às 20:03


Você sente algum tipo de dor? Ela persiste por mais de três meses? Se a resposta for positiva, saiba que você não está sozinho. Um estudo da SBED (Sociedade Brasileira para Estudo da Dor) aponta que um terço dos entrevistados sofre, pelo menos, com um tipo de de dor crônica (que dura no mínimo 90 dias). E quando há dor há sofrimento e um impacto direto na rotina das pessoas. Por isso, especialistas reforçam cada vez mais a importância de abordar a prevenção e avançar no diagnóstico e tratamento.
O médico intervencionista da dor Charles Amaral de Oliveira diz que poucas escolas de medicina dedicam parte da grade para o estudo da dor. "A dor é vista mais como sintoma e não como uma doença especificamente", diz. Quando ela é aguda, trata-se de um alerta do corpo de que algo está errado. Mas quando ela se cronifica, deixa de ser sinal e passa ser uma doença. "Nosso trabalho envolve ser um facilitador educacional para que daqui 10 anos a dor do brasileiro seja tratada de forma mais digna", comenta Oliveira, que é presidente da Sobramid (Sociedade Brasileira de Médicos Intervencionistas em Dor).
De acordo com Oliveira, o maior problema epidemiológico são as lesões de coluna. "O principal fator foi o aumento do índice de massa corporal. A população do estudo na verdade é um reflexo do que acontece em todo o mundo, ou seja, as pessoas estão se alimentando mal e fazendo menos atividade física", pontua.
O ortopedista especialista em cirurgia da coluna Matheus Luis da Silva, de Londrina, conta que 95% dos atendimentos em consultório têm relação com problemas na coluna. "Normalmente, a dor mais frequente é a lombar. Cerca de 80% da população já tiveram, têm ou terão essa queixa", completa.
Outra consideração apontada por Oliveira é o uso de dispositivos móveis, que tem elevado as queixas de dores na coluna cervical entre a população. Um estudo da SBED (Sociedade Brasileira para Estudo da Dor), divulgado pela Sobramid, mostra que a faixa etária média de ocorrência da dor crônica é 41 anos e as mulheres são a maioria entre os relatos. "A dor aguda não pode ser protelada porque ela pode se cronificar e o caminho para isso é a prevenção. É muito importante praticar atividade física, adotar hábitos saudáveis, se alimentar de forma equilibrada e ter sono restaurador", completa.

EXERCÍCIOS
Na crise aguda, é preciso passar pela avaliação do médico, aliviar e tratar a dor com medicação e fazer repouso. Mas quando ela é crônica, o educador físico Gabriel Bento explica que o exercício físico é fundamental. Entre as modalidades, a musculação bem orientada é uma das mais indicadas. "A melhora ocorre por dois mecanismos. Um é mecânico, pois fortalece a musculatura, funcionando como uma espécie de amortecedor das articulações; e outro é endócrino. Quando ocorre a contração muscular são liberadas miocinas, que agem como anti-inflamatórios, o que ajuda no alívio da dor", afirma.
A engenheira da computação Luciana Bueno Sampaio, 31, chegou a apontar o grau 5 na escala da dor, em relação à região da cervical. Hoje, essa classificação reduziu a zero. "Chegou um dia que a dor da cervical à lombar era tamanha que eu não conseguia sentar, me virar e mal pisar no chão", lembra. A escolha em não tomar medicamentos foi dela, mas por recomendação médica buscou o alívio na atividade física supervisionada. "O ortopedista indicou o alongamento e fortalecimento muscular. Hoje, não sinto mais nenhuma dor", comemora. (M.O.)


Smartphones e tablets podem potencializar a dor
O brasileiro gasta, em média, 3h14 do dia conectado ao celular, de acordo com levantamento realizado em 2016 pelo instituto Millward Brown Brasil. O que muitos não se atentam, porém, é que o uso exagerado e a postura inadequada quando se manuseia smartphones e tablets pode potencializar a dor crônica na coluna.
Isto leva à cervicalgia, dor localizada na parte posterior do pescoço e na nuca. "O movimento de ficar com a cabeça abaixada exige mais da musculatura. Crescemos para caminhar e por isso nossa coluna é ereta. Ficar muito tempo com o tablet ou celular faz com que a coluna fique fora do eixo, gerando muitas dores", explica o ortopedista especialista em cirurgia da coluna, Matheus Luis da Silva, de Londrina. O tempo indicado, segundo o médico, para manusear estes aparelhos é de 30 a 40 minutos ao dia para não causar sobrecarga. "Há cerca de quatro anos houve um aumento das pessoas mais novas que buscam tratamento para este problema. Geralmente os pais ficam preocupados com as dores do filho nas costas e pescoço e vão atrás de tratamento."

TERCEIRA IDADE
Também incluso nesta era tecnológica, os idosos que buscam tratamento para dores crônicas na coluna estão com outro perfil. "Os idosos também estão adquirindo dores cervicais em razão do mau uso do celular. Antes, vinha aquela pessoa da terceira idade que fazia crochê e ficava muito tempo com a cabeça baixa. Hoje não é mais assim", conta. Em posição ideal, com as orelhas alinhadas com os ombros, o peso transmitido ao pescoço é de aproximadamente 5 kg. Este valor pode chegar a 27 kg quando o pescoço é inclinado para frente.
Para prevenir a cervicalgia, Silva indica a realização de atividades físicas e cuidados com a alimentação. "O primeiro passo é a redução do tempo de uso destes aparelhos, além de elevar a altura. Outra questão é a alimentação saudável, com cereais, vegetais e legumes, pois isso fortalece a musculatura e elimina toxinas que o corpo produz. Também é indicado a prática de atividades, mas da forma correta, porque muitos acham que o trabalho do dia a dia é exercício, mas não é", elenca.
Com quem já convive com a dor, o especialista indica sessões de fisioterapia e exercícios domiciliares, como flexão no pescoço. Em pacientes fumantes e com etilismo, Silva aponta que a propensão a ter dores nas costas é muito maior, assim como o tratamento, que é mais difícil.

Pedro Marconi - Grupo Folha


Continue lendo