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Poluição no ar - Perigo invisível

04 fev 2018 às 21:08

Uma poeira tão fina que não se pode enxergar, invade o pulmão através da respiração, entra na circulação sanguínea e provoca efeitos adversos por todo o corpo. Quando isso ocorre de forma intensa e contínua, os danos à saúde não passam despercebidos como esse agente que paira no ar. Em uma das vias de comércio mais movimentadas de Londrina, a rua Sergipe, o ar perde qualidade pela presença de poluentes, especialmente o material particulado fino, a chamada poeira.
Além das indústrias, os maiores responsáveis pela poluição do ar são os escapamentos dos veículos, com destaque para os pesados, como caminhões e ônibus. Para se ter uma ideia, no horário de pico da manhã, das 7h às 8h, mais de 100 ônibus passam diariamente pela rua Sergipe. Considerando que o número total de veículos, são aproximadamente 11 mil, em apenas um dia. Além do trânsito, a via tem uma característica estrutural de um cânion urbano, já que é estreita e cercada de construções dos dois lados. Quem trabalha por lá, convive o tempo todo com o barulho dos carros e a poeira.
"Incomoda muito e a gente não dá conta. Além de limpar o chão várias vezes no mesmo dia, um dos funcionários tem sinusite. Ele praticamente trabalha com a bombinha porque é muita poeira", desabafa Natália Bianca Carvalho, funcionária de um salão que fica próximo a um ponto de ônibus. "Quando o vento sopra perpendicular ao eixo do cânion, são formados vórtices de ar que dificultam a dispersão dos poluentes ali gerados", explica Thiago Landi, estudante de Engenharia Ambiental da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná).
Ele investigou a qualidade do ar da rua Sergipe, entre as ruas Minas Gerais e Mato Grosso, de janeiro a março de 2016. Os dados coletados foram apresentados no estudo "Quantificação da poluição do ar pela modernização da frota veicular". O trecho foi monitorado em uma estação provisória em uma sala comercial, um salão de cabeleireiros, na cobertura de um prédio a 20 metros de altura e na janela do campus da UTFPR, na zona leste da cidade.
Um dos objetivos do estudo é fornecer subsídios que possam influenciar projetos de melhoria da qualidade do ar na região central, tanto em mobilidade urbana quanto em saúde pública. O estudo de Landi é inédito no município e foi financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), sob a orientação da professora Patricia Krecl, do campus Apucarana. Ela comenta que o trabalho investigou as concentrações de poluentes de esquina a esquina e os fatores que influenciam os níveis de poluição, como o fluxo de veículos, a composição da frota veicular e a meteorologia.
A diretora de Monitoramento Ambiental e Controle da Poluição do IAP (Instituto Ambiental do Paraná), Ivonete Chaves, ressaltou que, no geral, a qualidade do ar em Londrina é boa. Afirmação, segundo ela, é feita com base nos dados de uma estação fixa de monitoramento da qualidade do ar que coleta dados de hora em hora, de toda a cidade, desde o final de 2016.

Adoecimento é silencioso
Assim como não enxergamos a poeira que invade nosso corpo através da respiração, não percebemos a curto prazo, os males que causam à saúde. Segundo a médica Evangelina Vormittag, um dos problemas da poluição do ar é justamente esse adoecimento silencioso. "Atualmente, a poluição do ar é o fator de risco ambiental mais importante associado ao adoecimento e morte no mundo, ultrapassando a água. Ele é um agente carcinogênico e está diretamente relacionado à mortes em crianças, ultrapassando a diarreia", destaca.
No Brasil, de acordo com um levantamento da OMS (Organização Mundial de Saúde), para cada 100 mil habitantes, 15 morrem em decorrência da poluição do ar. A médica salienta que além do adoecimento e do impacto no sistema respiratório, o ar poluído está relacionado a outros tipos de câncer, como o de bexiga, mama e tecido hematopoiético, além do de pulmão.
Ela é médica e diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade em São Paulo, que tem o propósito de atuar nos efeitos da poluição na saúde humana. Vormittag salienta que a doença cardiovascular também tem relação com o ar dos centros urbanos. "As pessoas automaticamente relacionam a poluição do ar com problemas respiratórios, mas somente 20% da população é atingida nesse sentido. Os 80% tem efeito cardiovascular, como infarto do coração, arritmia e derrame cerebral", explica.
Já se sabe também, que o ar poluído, principalmente o material particulado fino, tem efeitos na reprodução humana, obesidade, diabetes e estudos recentes ainda apontam perda óssea e até a visão. Jair César de Santana é segurança de uma relojoaria na rua Sergipe, no centro de Londrina, há 12 anos. Ele revela que há alguns anos passou a usar colírio para aliviar a irritação nos olhos. "Todos os dias, no final da tarde, o olho começa a coçar e ficar vermelho. Tenho certeza que isso é causado pela poeira, pois aos finais de semana e feriados, quando estou em casa, isso não acontece", observa.
O nível de exposição e a suscetibilidade do indivíduo são determinantes para os efeitos do ar poluído na saúde, de acordo com a médica Vormittag. Ela diz que o ar não é como a água, que nos permite optar por uma fonte mais limpa ou engarrafada, por exemplo. No entanto, ela faz algumas recomendações para a população amenizar os impactos. "O uso de máscara ajuda bastante, assim como fazer exames periódicos; evitar ficar muito tempo ao ar livre se a concentração de poluentes for alta; evitar se exercitar em vias de tráfego muito intenso; optar por andar em ruas internas ao invés das movimentadas e se for um dia muito quente, evitar os horários de pico de temperatura, pois a luz solar aumenta os níveis de ozônio, mesmo em parques e áreas livres", finaliza. (M.O.)


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