Túnel feito por presos, pedras em deslocamento de Apucarana a Londrina, reserva de ouro sendo explorada embaixo do asfalto. A falta de informações faz com que alguns moradores criem suposições fora do comum sobre os tremores no Jardim Califórnia, região Leste de Londrina, registrados nas últimas semanas. A mais nova agitação no solo aconteceu na madrugada do último domingo e deixou ainda mais apreensiva a dona de casa Maria Cecília Lazari.
"Estava em casa quando senti o tremor. Foi por volta da 0h40. É algo que vem de dentro para fora. Parece que tem pedra rolando aí embaixo. Fiquei assustada e tive dificuldade pra dormir depois", disse ela na tarde de domingo. "A gente escuta tanta coisa sobre o que pode estar causando o tremor. As últimas ouvi hoje na missa. Uma dizia que existe há reserva de ouro embaixo do bairro e que estariam a explorando. A outra contava que o motivo seria por causa de pedras que estão se deslocando de uma pedreira de Apucarana a Londrina. Mas são só histórias. Acredito que os tremores são mesmo por causa da obra na tubulação realizada pela Sanepar, ano passado", explica a dona casa, moradora do bairro há 45 anos.
O Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), no dia 15 de dezembro, confirmou um abalo sísmico de magnitude 1,8 na região Leste de Londrina. "Até o ano passado eu nunca tinha sentido nenhum tremor. Tudo isso só começou depois que a Sanepar passou a mexer em nossas ruas", ressalta ela, que tem uma casa próximo à esquina das Ruas Jaime Americano e Dolores Maria Bruno. Numa distância de 10 metros do local, há pelo menos nove tampas de galerias. Aparentemente, instaladas há pouco tempo pela Sanepar.
De acordo com a população, o que mais causa indignação é a falta de informações concretas que justifiquem o problema. "Enquanto a Sanepar não nos dá uma resposta, temos que ouvir absurdos por aí. Teve gente dizendo que seria por causa do lixão que existia nesta região, mas que já foi desativado. Foi falado até que presos do 4° Distrito, que fica na Avenida Dez de Dezembro, estariam cavando um túnel e passando por baixo do bairro", contou a pedagoga Fernanda Bento. "Mas o que queremos é uma resposta técnica do que realmente acontece aqui. Quem pode fazer isso é a Sanepar, que deve realizar uma vistoria mais profunda no interior destas galerias", cobra Fernanda. "Antes que seja tarde demais. Isso é uma tragédia anunciada. Vão esperar que aconteça algo grave para tomar uma providência?", questiona.

A Sanepar garante que não há problemas na tubulação de água e na adutora, possíveis causas dos abalos
Mas não é somente no interior das casas que a situação assusta. Na Rua Allan Kardec, os frequentadores do Bar Prudente foram pegos de surpresa na manhã do último sábado. Dia em que outro tremor foi sentido pela comunidade. "O tremor foi tão forte que chegou a derrubar copos de cerveja das mesas. O susto foi muito grande", revela o aposentado Darci Wismeck.
Proprietário do estabelecimento, Juarez Prudente, disse que tem morador querendo se mudar do bairro. "Já escutei gente dizendo que vai embora do Califórnia, antes que aconteça o pior. Tenho o bar há dez anos e nunca vi a população tão assustada como agora", revela o comerciante. (P.M.)
Em entrevista a repórter Viviane Costa, do Grupo Folha, o gerente-geral da Sanepar, Sérgio Bahls, negou que haja problemas na tubulação de água e na adutora. "Não existe essa possibilidade. Os técnicos fazem acompanhamento 24 horas por dia. Todos os equipamentos de segurança necessários foram instalados", argumenta. Segundo ele, a primeira adutora construída no bairro foi instalada em 1991. "A segunda adutora entrou em operação há 14 meses e é similar a primeira. Não há irregularidades. Com os equipamentos, não existe a possibilidade de bolhas de ar na tubulação", garante. Em média, 185 milhões de litros de água passam diariamente pelo bairro.
No último domingo, o prefeito Alexandre Kireeff comentou a situação pelo Facebook. Em parte da publicação, ele informa: "... A primeira causa natural descartada pela secretaria (municipal) de Obras foi um possível acomodamento de terra em grande escala em função da saturação do solo por umidade em decorrência do excesso de chuvas, pois a região em questão é uma encosta que se estende do ‘espigão’ do aeroporto até a (Avenida) 10 de dezembro. Não foram encontradas evidências típicas para esse tipo de ocorrência. Quanto às hipóteses antropogênicas, o golpe de ariete causado pela movimentação da coluna de água na nova tubulação da Sanepar é uma das possibilidades avaliadas, mas não foi confirmada e ainda seria precipitado fazer qualquer afirmação neste sentido...", postou o prefeito. (P.M.)