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Nossa crônica

27 out 2016 às 11:00
A gratuidade do mal
Sou uma leitora voraz. Desde pequena aprendi que as histórias são amigas, encantam, ensinam, doutrinam. Foi lendo que entendi que poderia suportar todo o peso do mundo nas costas se segurasse nas mãos dos personagens e, com eles, enfrentasse os conflitos que se apresentam nas tramas. Senti a dor de Úrsula de Cem anos de Solidão quando ela se deu conta que vivera anos como boneca diante das netas. Partilhei do desespero de Gregor, em Metamorfose, quando ele acordou e compreendeu que a vida lhe transformara em um inseto. Perambulei com Raskólnikov, de Crime e Castigo, pelas ruas de São Petesburgo, mas não cometi, como ele, um crime; no entanto, chorei ao ver o jovem tentando justificar sua loucura. Gabriel García Marquez, Franz Kafka, Fiódor Dostoiévski e outros escritores me permitiram conhecer dores, angústias, dar sorrisos, derramar lágrimas, as quais, não fosse a Literatura, não estariam dentro de mim. Porém, nada se compara à dor que uma pessoa pode incutir à outra. Essa reflexão me veio depois de pensar um pouco sobre o prazer. Não o prazer ligado à diversão, mas aquele que vem da parte mais obscura do homem, o prazer de provocar o outro para que ele sofra. Analisei uma situação e constatei que certas maldades existem no coração humano de forma gratuita. Deseja-se provocar, almeja-se ver o sorriso de alguém transmutar em lágrimas, alegra-se em destruir um castelo que, ainda que de areia, era o castelo de alguém. O mal gratuito do homem (e quando eu digo homem penso eu, tu, ele, nós, vós, eles) está ligado à sua incapacidade de amor sem que o ódio interfira. A gratuidade da maldade reside no fato de ser o homem o lobo do próprio homem, e Hobbes talvez estivesse mesmo certo, a violência contra o próximo caminha para além do físico e do verbal, pois em alguns casos, transcende e afeta o espírito. A natureza humana é regida pelo egoísmo, e a maldade é só o início desse gratuito degrau das devassidões.

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