Certo dia, cheguei a um hotel. Um bem pequeno localizado no interior de São Paulo. A cidade sem muitos atrativos, daqueles lugares em que o silêncio paira no ar, a vida corre lentamente e as pessoas não precisam de pressa, pois o tempo lá é um tempo mais duradouro. Olhei tudo o que os olhos puderam enxergar na avenida principal, nada mais que meia dúzia de carros, algumas carroças insistentes que iam e vinham, talvez levando leite, ou quem sabe apenas de passagem. Mas, voltando ao hotel... Ao entrar nele, observei que na parede do pequeno estabelecimento havia fotos de todos os grandes que por lá já passaram. Com que orgulho o recepcionista veio contar-me sobre os tais ilustres. ‘Este, apontava ele, esteve aqui em janeiro, e mostrava a foto de um cantor sertanejo; aquele, apontando com o dedo, já passou três vezes por aqui’. Os quadros estavam espalhados por todo o espaço. Aos montes! Eles tinham duas funções. A primeira, fazer o hóspede tomar conhecimento sobre quais personalidades já passaram por ali. A segunda fazer com que o hóspede reconheça a importância do lugar. De fato, é um hotel agradável. Para uma cidade com pouquíssimos habitantes, é excelente. Porém, os ilustres cantores e duplas sertanejas que por lá passaram nada mais foram do que hóspedes. Ser ou não ilustre está dentro de cada um de nós. Os cantores são figuras públicas. Alguns, seres humanos fantásticos; outros, seres humanos mesquinhos e envoltos em uma infinita pequenez. Nós, hóspedes que passamos despercebidos, somos ilustres, haja vista que quem conosco convive conhece nossas duas faces. A magnífica e a mesquinha. Sem máscaras, somos o que somos, sem palco, sem holofote, mas com um show a cada dia, pois viver é um belo espetáculo do qual somos os ilustres protagonistas.