Pesquisar

ANUNCIE

Sua marca no Bonde

Canais

Serviços

Publicidade
Publicidade
Publicidade

Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
29 jan 2017 às 21:41

Compartilhar notícia

siga o Bonde no Google News!
Publicidade
Publicidade
O casarão
Deu sinal ao taxista que parasse o carro no número 595. Ele assim fez. Janete ficou um tempo dentro do carro, contemplando a bela edificação diante de seus olhos. Havia portas de madeira com arcos que davam para a avenida principal. Em madeira colonial, o apagamento do brilho denunciava a falta de trato com as sofisticadas portas. O jardim estava tomado por tiririca. Os cravos e minibeijos de todas as cores resumiram-se em mato. O cedro azul ainda estava lá. Suas raízes profundas mantiveram-no vivo em meio à morbidez do palacete. Janete abriu a porta do carro e saltou, pedindo que o taxista a aguardasse. Seus olhos percorreram a calçada onde formigas trilhavam com folhas e flores nas costas rumo ao interior da casa. Lembrou-se, naquele momento, da casa de Úrsula em Macondo. Que tristeza! Ver em ruínas o lugar onde vivera por mais de meio século. Ali, sozinha e desolada, Janete abriu o portão. O cadeado enferrujado não exigiu muito esforço. Foi devagarinho se aproximando da porta principal. Entre a ansiedade e a saudade, havia o medo. Colocou a chave e girou a maçaneta. Vazio, apenas o vazio havia no salão onde outrora imperavam as damas da sociedade com seus pares. A mesa em travertino com cadeiras de carvalho não estava mais lá. Mas ela se lembrou dos 20 lugares sempre ocupados. Lembrou-se da porcelana francesa em que servia os pratos mais sofisticados da época. Seus olhos vislumbravam o sofá em que ela e Gerson, ao final de cada recepção, entregavam-se exaustos. O marido, sempre sedutor, amava-lhe com devoção. Seu corpo sentiu o toque seguro das mãos dele, na boca veio o gosto do beijo que descia para o pescoço até chegar aos seios. Janete arrepiou-se. Tentou não pensar nos calores do passado, afinal já tinha 72 anos e agora a idade exigia outros pensamentos. Outros? Que nada, pensou ela. Era mulher, estava ali sentindo e para o sentir não há idade. Em diafania viu Gerson aproximar-se. Continuar a enredá-la naquela trama sinuosa e caliente. Sentia suas mãos passeando por cada parte do corpo esguio e de pele macia. Um gemido saiu da boca de Janete. Ela levou a mão à boca como se quisesse sufocar o que nela sempre viveu. Caminhou até a cozinha, tentando amenizar o calor que lhe tomava. Os olhos podiam ver o movimento dos funcionários, ouvir a cozinheira ralhando com as crianças que queriam os doces antes da hora. Dois filhos teve o casal. E agora, ela estava só. Um aperto lhe veio ao coração e um nó à garganta. Como pôde o destino ser tão cruel? Como pôde Deus tirá-la de forma trágica do convívio das três pessoas a quem ela mais amava. No silêncio do casarão, Janete chorou. Suas lágrimas eram pelo que viveu, eram por tudo o que faltou viver e, sobretudo, pelas sensações e emoções que jamais poderia sentir. Não quis ir até os quartos, tampouco se dirigiu ao quintal. O que vira era destruição, era um lar sendo habitado por formigas e suas folhas. Chorou um choro amargo, triste. Em pouco mais de meia hora ela reviveu instantes únicos de sua vida. O momento era, pois, outro. Voltar à casa dos parentes com quem vivia e se render ao sabor acre dos dias. Trancou a porta. Dirigiu-se ao portão, fechou o cadeado enferrujado. Olhou uma vez mais para o palecete. Decidida, concluiu, hora de vendê-lo. A água não passa pelo mesmo lugar por mais de uma vez e para sentir o que sentiu no palecete ela não precisava estar lá. Gerson vivia nela, assim como os filhos. O passado ela não conseguia ser. Porém, o presente seria por ela vivido, haverá um virar de página, haverá uma nova história que começou no instante em que ela entrou no táxi.
Publicidade

Últimas notícias

Publicidade
LONDRINA Previsão do Tempo

Portais

Anuncie

Outras empresas