Pesquisar

ANUNCIE

Sua marca no Bonde

Canais

Serviços

Publicidade
Publicidade
Publicidade

Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
06 out 2016 às 10:20

Compartilhar notícia

siga o Bonde no Google News!
Publicidade
Publicidade
O homem subtraído

Somos humanos e, como tal, agimos - ou ao menos deveríamos - agir de forma diferente das demais espécies. Nossos gostos são outros, nossos desejos e necessidades também o são. Assisto todos os dias a um belíssimo espetáculo da natureza, animalesco e doce. Pela manhã, deparo-me, ao longo do percurso que faço, com dois gatos vira-latas estendidos na calçada. Passam a pata um no outro. Lambem-se. Olham-se e num giro movimentam o corpo de modo que os olhares permanecem encaixados e os corpos enlaçados como numa cama de linhas e fios emaranhados. A dança da amizade sensual entre os bichanos me despertou sentimentos vários. Mostrou-me o quanto estou distante do toque. Penso que me esvazio a cada dia que deixo de receber um abraço fraterno, um delicioso abraço no qual se envolve o outro e se é envolvido. Esvazio-me, porque me falta o toque delicado de um carinho, o beijo suave na face, o passar de mão pelo cabelo insinuando que há alguém ali preocupado com o que sinto. A falta desses ingredientes tão basilares ao ser humano tem me despertado inquietação. Não sentir essa humanidade tem diminuído meu lado racional e deixado fluir minha face emocional, tensa, imatura e cheia de mágoas. Olho todo dia no espelho, instintivamente imito no vazio de mim mesma os movimentos dos bichanos da rua, cuja ternura, alegria e leveza contrastam com aquilo que tenho trazido às costas. Volto de novo o meu olhar para o meu, não posso me reconhecer, não posso me encontrar, tampouco reconstituir o que fui. Forças para uma reconstrução é necessária, porém como conseguirei me amparar nelas? A tinta que cobre meus lábios nada mais são do que tinta. O acessório que levo ao pescoço nada mais significa que um adorno. Assim também são as roupas, sapato e tudo o mais que não seja humano. Sou ser esvaziado. Sei o que fazer. Mas como farei? Sei o que dizer. Mas como direi? Não careço mais de sentimentos duros e pesados. Urge em mim a leveza de passos, a delicadeza do sorriso, a mansidão em palavras, o alento no olhar. Qualquer ato que fuja dessa minha urgência só me irá ainda mais desumanizar e deixar de me subtrair daquilo que me fez sempre ser humana.
Publicidade

Últimas notícias

Publicidade
LONDRINA Previsão do Tempo

Portais

Anuncie

Outras empresas