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Nossa crônica

05 abr 2017 às 23:11
Quantas diferenças marcam o presente dos tempos passados. Claro que esse pensamento é bem comum, mas ainda assim, deparo-me com situações nas quais presente e passado se mostram tão díspares. Quando criança, brincava eu com tantas possibilidades que, ao final do dia, o corpo se rendia às dores advindas da amarelinha, do pega-pega, da bola queimada e outros jogos que enchiam de alegria as ruas de meu bairro. Gritos: par ou ímpar, eu começo, agora você, esses comandos faziam parte da deliciosa arte de ser criança. Dia desses fiquei acompanhando três crianças de meu prédio que brincavam no limitado espaço de lazer. Cada uma tinha seu celular e juntas mostravam os pontos obtidos nas etapas de um jogo. Era bastante empolgante ver as três ali juntas, mas paradoxalmente tão solitárias. Não havia comando, tudo era feito roboticamente. Mãozinhas habilidosas iam e vinham sobre os botões. Olhos vidrados não perdiam um lance que acontecia na tela. Fiquei ali, parada, quase uma estátua. Sem palavras e sem ação, apenas olhava as meninas e visitava as tantas tardes em que corria como serelepe para subir em uma árvore ou atravessar a quadra desviando da bola. Cada geração tem seu jeito de brincar. Não há forma certa ou errada, mas sim modos diferentes de conceber o que é diversão. Guardo um conceito amplo da alegria. Infância, para mim, tem cheiro de bola queimada e muita correria pelas ruas do bairro. Ontem, ouvia a mim e a outras meninas brincando com empolgação. Hoje, apenas contemplo os rostos que ficam entre a concentração e o encantamento diante da tela e da felicidade tecnológica.

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