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Nossa crônica

12 set 2018 às 19:43
Para tudo existe uma palavra. Claro que sim. Na verdade tem objetos e ações que contam com muito mais que uma palavra para descrevê-los. Há palavras tão doces que só de serem pronunciadas já sugerem ser boas. Quando a gente fala que teve um sonho, por exemplo, vem em mente sempre uma situação boa; se vamos comer um sonho - hummm - a ideia é a de que sempre vai ser um doce macio e com recheio delicioso. Adoro pensar no que a palavra provoca quando a leio ou a ouço. Só que nem sempre essa variedade de sinônimos é bem-vinda. Estava dia desses com uma amiga que tem um bebê recém-nascido. Depois de mamar, o bebê, como é comum acontecer, devolveu o leite. Gorfou - disse a mãe. E eu olhei para aquela pele rosada, de rostinho delicado, vi um queijinho branco no cantinho da boca e concluí que o verbo era muito forte para se referir a um ser de tamanha delicadeza. Bebês não podem gorfar. Bebês soltam queijinho, devolvem o leite, vomitam, talvez, mas gorfar soa a mim grosseiro frente à delicadeza da criança. Os eufemismos são necessários no nosso cotidiano, são uma forma de dizer algo ruim de uma maneira mais amena. Há anos ouço os alunos dizerem que precisam fazer o número dois. Quanta doçura há nessa expressão eufêmica que, se fosse dita de forma mais direta, a ação perderia toda a suavidade. Porém, nem sempre essa delicadeza é bem-vinda. Quando a gente se zanga com alguma situação, vale mais que uma seção de terapia dizer uma palavra em seu sentido real que empregar uma delicadeza. E mais ainda, soletrar um PQP com todo o direito que um ser humano tem na hora que martela o dedo ou coisa pior não tem preço. O único cuidado é saber usar, sem ofender nem provocar uma guerra. Delicadeza em palavras quando necessário, e rasgar o verbo só nos casos que denotam mais que emergência.

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