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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
02 set 2018 às 21:09

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A reescrita cotidiana
Já não consigo mais contar quantas vezes empreguei o ponto final. Coloquei-o uma vastidão de vezes em textos, os quais são frutos da minha imaginação ou tomentos; em histórias reais que dia a dia construí; em laços de amizade que se esfacelaram como cristal; em relações de pouca intensidade que já não contribuíam para o meu ser-estar no mundo. Os pontos finais são necessários a todo o instante. Ainda que existam situações nas quais bradamos para não ter de empregá-los, impossível, quando chega o momento, lá está ele, inquieto na ponta da caneta ou na ponta da língua, aguardando a hora de ser o protagonista.
E no instante em que teclo o esperado ponto em um texto, vivo o ápice do desejo de mais uma vez iniciar uma nova trama; no instante em que coloco o ponto - que se quer final - em sensações tantas, como mágica, elas voltam a ser fortes dentro de mim. Penso que é assim mesmo a vida! Por mais ciente que o homem seja da necessidade de concluir por definitivo os ciclos, a relutância humana por mantê-los é inegável. Termino este texto pensando que - ainda que os escritores escrevam; os cantores cantem; os compositores componham; os pintores criem, visando entender as complexidades do homem - o contraditório humano estará lá a bradar para não ser sufocado por um ponto final, a exigir seu lugar no mundo, a fim de que as histórias se delonguem. Para o deleite ou o penar? Não sei, mas que continuem sendo escritas no cotidiano.
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