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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
26 ago 2018 às 17:49

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De tempos em tempos, vejo-me diante da necessidade de abrir armários a fim de tirar deles peças que já não uso mais. A tarefa que, aparentemente, é tão simples, mostra-se desafiadora, uma vez que a cada peça que pretendo descartar vem à mente tudo o que vivi com ela. O dia em que a usei, as pessoas com quem estava, os sorrisos que dei ou ainda a lágrima que guardei num cantinho lá dentro do peito para que não rolasse. Roupas têm vida! Parece que adivinham os nossos sentimentos. Se alegres, escolhemos as cores mais ousadas; se tristes, de forma instintiva, separamos os tons melancólicos, pardos, sem vida. Roupas contam histórias, aquelas histórias que todos podem ajudar a contar, aquelas que desejamos compartilhar com quem nos rodeia ou ainda as mais secretas, que penetram em nossa alma, em nosso íntimo e imprimem em nosso coração um sentimento de nostalgia indescritível. Desfazer-se de uma peça de roupa do armário significa descartar dias já vividos, sentimentos intensos, dores marcantes, lágrimas angustiantes, sorrisos delirantes. Com esses dias de chuva, senti que precisava abrir o armário e despi-lo de roupas que não me agradam mais. Que estranha sensação a de ter de separar para outro as peças que tanto me serviram, que em tantos momentos me acompanharam, que suaram comigo, que sofreram comigo, que sorriram, que se angustiaram, que se alegraram. Todavia, é um tempo de renovação, tempo de buscar outras cores, outros modelos. Penso nas roupas como pessoas, cada peça da qual me desfaço é uma pessoa que, por alguma razão ou sem razão alguma, afastou-se de meu caminho. Lembro de muitas com saudade, ex-aluno com quem convivi por longos meses ou até anos e com quem já não posso mais conversar, amigos com quem trabalhei e, em busca de sonhar outros sonhos, nossos caminhos se desviaram, pessoas queridas cuja morte, com sua silenciosa mão, levou de meu convívio. É... roupas são como pessoas, muitas, ainda que distantes, não esquecemos jamais, outras, ainda que próximas, não se fazem perceber ao nosso lado. Diante de meu armário aberto, volto-me à tarefa de escolher que peças devo ou não descartar, nem me dou conta de que em meu coração, neste momento, estou também descartando pessoas e revivendo instantes únicos que merecem para sempre ser celebrados.
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