Eu já tive a oportunidade de conhecer várias capitais do Norte e Nordeste do Brasil. Meu olhar para essas cidades sempre se deteve na arquitetura colonial, nas belezas naturais, mas em uma certa viagem eu me encantei foi com a beleza de um senhor que andava pela rua vendendo seus livros. Meus olhos se perderam nele até que ele se perdeu pelas ruas históricas de Belém. Com que maestria ele segurava nas mãos seus livretos e com que alegria ele os oferecia aos transeuntes. Esse oferecer não era de qualquer forma. Era em versos, e versos rimados que conotavam toda a satisfação do poeta vendedor em ter em mãos o fruto de sua atividade intelectual.
Bom dia, linda menina!
Não passe assim apressada,
falo um verso que te nina,
só ouvir não paga nada!
Guardei na mente esses versos e, no coração, guardei a imagem da menina abrindo um sorriso leve e de aprovação pela brincadeira poética. Não satisfeita apenas em ser espectadora da cena, fui atrás de informações do tal homem do livro. Tratava-se de um professor aposentado que dedicou a vida à escrita de poesia. Trovas, cordéis e outros poemas sem forma fixa brotavam da imaginação desse homem que era carinhosamente chamado de Boto. Como não souberam me explicar o porquê de Boto, tirei minhas próprias conclusões. No nosso folclore, o boto-cor-de-rosa, que é uma espécie inteligente e semelhante ao golfinho, transforma-se num jovem belo e elegante nas noites de lua cheia. O jovem é um galanteador, de estilo comunicativo, facilmente faz a moça por ele se apaixonar, depois a abandona. Mas o Boto de Belém não faz nada disso. Ele é mesmo um sedutor, só que seduz com palavras, com gestos e com um único objetivo. Sabe qual? O de que as pessoas leiam, conheçam a capacidade intelectual imensa desse Boto escritor que sabe transformar em poesia a palavra e encantar o coração de quem escuta por meio da mensagem que seus versos transmitem. Se o boto do nosso folclore prefere as noites enluaradas, o Boto poeta prefere o dia; se o boto do folclore seduz as moças e depois as abandona, o Boto poeta seduz com a reflexão presente em seus textos e esta vai estar com o leitor para sempre, em forma de mensagem que caminha para além de rimas e versos, pois se amalgama com as nossas ansiedades, preenchendo os vazios humanos que só cabe à poesia preencher.