O telefone tocou numa manhã de domingo e com dificuldade eu abri os olhos para ir atender. Que saco! Não eram nem dez horas e eu queria dormir. Só dormir! Do outro lado da linha, minha mãe ouvia um alô emitido por mim com nenhuma vontade. E eu nem tive tempo de perguntar se tinha acontecido alguma coisa porque ela já deu logo a notícia: seu pai está na UTI. Fazia alguns meses que eu não falava com ele, e ainda uma vida inteira batendo de frente com o velho. Se eu pensava A, ele pensava B; se eu queria sol, ele queria chuva. E por aí iam nossas diferenças e teimosias que serviram sempre para fazer crescer um abismo entre nós. E nesta manhã de domingo, ao ouvir a notícia, as diferenças em nada importaram. Eu senti um nó na garganta, uma vontade sem fim de dizer a ele que estavam vivos em mim os instantes do futebol, as vezes em que soltamos pipa, o dia que ele construiu pra mim um carrinho de rolimã, as vezes que perdeu pra mim no videogame. Dizer a ele que as discussões do passado não tinham sentido naquele momento e tudo o que interessa agora era ter uma oportunidade de abraçá-lo, de deixar ele perceber o quanto eu fui tolo. Não sei se terei a oportunidade de recomeçar minha história com meu pai. Não sei se será possível mostrar a ele que o meu amor existe. Nada disso eu sei! Mas o que eu sei é que as pessoas que, de fato, interessavam em minha vida são aquelas que eu nem sempre valorizarei. Não quero mais receber um telefonema e sentir dor pelo que não fiz. O fazer é agora. O amanhã é incerto demais!