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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
15 jun 2017 às 15:43

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Corpo em cólera
No quarto há espaço. Alguns objetos estão desalinhados. A cama é imensa para o corpo solitário. Mas o corpo é pequeno para o sentir que há nele. Tento respirar com calma. Engolir o sal que escorre das lágrimas. Na janela, uiva o vento. No coração, a dor ara o território. A cabeça gira sem se mover. Inquietações, soluços, lamentos. Tudo o que poderia ter sido e que não foi. Tudo o que foi e que não poderia ter sido. Insana, giro na cama. Fecho os olhos. Não quero sentir. Tento afastar de mim as sensações que me tomam. Elas vêm ao meu encontro. São minhas. Dizem respeito a você. Você, sempre você. Antes veredas secas eram lacunas. Agora são vias apartadas pelo oceano. Fecho os olhos insistentemente. Respiro. O ar tem seu cheiro. As mãos sentem as suas; o corpo, seu abraço. Em cólera, choro baixinho porque o sentir carece de silêncio. A sua voz ecoa em mim. Não posso mover meu corpo porque sinto você nele. Há uma dança louca em meu sentir. Movimentos, devaneios, diafania. Há um longo inverno pela frente. Outono tarda. Verão ainda mais. Agora, fechar os olhos, esperar a primavera do seu sorriso.
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