Notícias

Nossa crônica

18 jul 2018 às 22:41
Os olhos
Há muito mais para ver nos olhos de uma pessoa que supõe nossa vã filosofia. Havia olhado poucas vezes apenas no profundo daqueles olhos de mar; o suficiente, porém, para apreender deles uma doçura e uma meiguice únicas, das quais emanava um rio de verdade. Não sabia precisar o porquê de aqueles olhos atraírem-no tanto. Somente sabia que eram olhos que diziam muito mais que palavras. Já contavam com uma idade maior que a juventude. No rosto havia marcas de um caminhar leve, ainda que uma ou outra pudesse sugerir um fardo pesado que, em algum ponto, esteve sobre os ombros. O que o prendia, no entanto, não era a face, eram os olhos. Lembrava-se de que neles resplandecia um brilho que fizera os dele também brilhar. Um brilho que resistia a vontades suprimidas, a desejos asfixiados face a uma sociedade que impõe regras que pairam no ar e invadem o pensamento de uma pessoa de modo a torturá-la sem que nada tenha sido feito ou dito. Eram olhos de mar revolto, mas também pelos quais tranquilamente navegava o barco da mansidão. Eram olhos de sedução inimaginável e de carinho doce. E ele, preso na provocação daqueles olhos, revivia solitário o instante em que ambos os olhares se cruzaram e encontravam em horas poucas o infinito mágico do prazer.

Continue lendo