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Nossa crônica

10 out 2016 às 09:51
Das loucuras e conjecturas...
Lúcida ou insana, não sei, o que vi foi pouco, mas suficiente para registrar neste pequeno espaço. Da janela, ela olhava o horizonte. Lembrava de cenas, de situações reais, de ilusões. Pensou em tudo o que estava ao seu dispor. Mas pensou mais ainda no que lhe era escorregadio. Abriu uma cerveja e brindou a alegria fugitiva, o sorriso forçado, o abraço imaginário e a solidão. Ergueu a lata daquela bebida que a fazia sentir-se tão masculina e, de um só gole, devorou quase todo o conteúdo. Depois, enquanto o álcool percorria seus poros e a colocava num estado de meio alegria, ela gargalhou. Lembrou-se de todas as artimanhas que fizera para estar ali. Lembrou-se de todas as ousadias. Coisinhas compradas que tiveram de ser discretamente guardadas. Bem, corrigiu-se, muito bem guardadas. Mas ela era maior. Lembrou-se disso e gargalhou uma vez mais e num último gole tomou a cerveja para logo abrir outra e outra. À medida que bebia, as gargalhadas foram minguando. Dentro dela emergiu um choro que já há muito estava lá. Pensou no amor e chorou. Pensou na vida e chorou. Teve tempo ainda de pensar em sonhos. Não se esqueceu de sonhos tão perfumados que tivera, tampouco daqueles tão envoltos em uma sensualidade provocante. Tocou seu rosto, seu corpo, mas nada de sensual pôde encontrar. As lágrimas vieram aos montes. Oxalá ela pudesse secá-las para sempre. Mas alguém pode? Pensou. Ficou ali ainda por muito tempo na janela. Contei pelo menos três cervejas, uma meia dúzia de gargalhadas e muitas lágrimas a rolar. Se eu fosse poeta, ah se eu fosse poeta.... iria até ela e a tomaria em meus braços para sempre. Sonhos não têm perfumes, mas ela é o sonho às avessas, perfumada e doce, poesia triste e feliz, materializada em mulher.

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