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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
19 set 2016 às 14:30

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Reino de palavras
Já habitava dentro dela um reino formado por palavras. Não estava ainda acabado, mas dia a dia ela tentava colocar nele letras que pudessem completá-lo. Um dia, certo visitante veio habitar aquele Reino. Estranhas foram as mudanças que houve dentro dela. As palavras começaram a saltar formando verdadeiras muralhas em que o sentir fazia-se concreto. Pela manhã, inspirava-se com o receber do Sol. Este a iluminava de tal maneira que, à tarde, ela se punha como Rosa a desabrochar na Primavera. À noite, ainda tomada pelos instantes contínuos, ela se rendia a uma saudade febril, a um amor doentio, mas que, paradoxalmente, crescia dentro dela como amor maduro e coerente. As palavras fizeram do Reino um lugar encantado. Lugar de aconchego, de amor, de paz. Mas nem tudo pode ser paz. O tempo foi deixando as palavras mais ácidas. O amor mais embrutecido. E o visitante pareceu já não querer mais receber as letras que lhe eram destinadas. Assim, ela pensou, assim, ela sentiu. Certa ou errada? Quem pode dizer? Fato é que o Reino mudou. Ela, porém, viu-se afastar o visitante. As palavras ficaram. Teceu ela
textos e mais textos. O Reino transbordou de beleza e alegria, outros dias, de dor e sofrer. Mas o Reino se fez um Reino de palavras. E o coração dela, um lugar em que transborda o visitante. Se ele se for para sempre, as palavras estarão lá. Mas não se engane o poeta que pensa que textos encontram destinatários, alguns podem sim encontrá-los. Todavia, os que ela compôs para ele são apenas dele e nada mais.
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