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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
20 jun 2018 às 21:50

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A liquidez das relações
Sou cronista; porém, antes de ser cronista sou humana e, dentre tantas características que trago comigo, boas e ruins, é preciso deixar claro que sou muito detalhista. Gosto, na verdade sempre gostei, de observar atenta as pessoas. Não as olho para fazer comentários posteriores com alguém, mas para trazer para mim o que, ao meu ver, vale a pena e enviar para longe o que considero negativo. Diante de tantas observações, uma me tem atormentado, diz respeito ao modo como as pessoas, independente de sexo, têm se relacionado. Escreveu Zygmunt Bauman que a contemporaneidade é permeada pela liquidez. Certo estava o sociólogo polonês. As relações escorrem por entre os dias, os abraços se perdem por entre as ofensas, o beijo perdeu espaço para o sexo rápido e isento de compromisso. Esvazia-se o mundo das relações longínquas e a liquidez se torna visível na superficialidade com que as pessoas ‘dizem’ amarem-se hoje e, num passe de mágica, desamar amanhã. Como alguém cuja vida caminha para mais de quatro décadas, sinto necessidade de reviver instantes singulares em que as pessoas eram sempre tratadas com o carinho e o respeito que merecem. Sinto saudade de olhar pela janela e ver a moça e o rapaz que se beijavam no mês passado, cultivando ainda o mesmo olhar apaixonado. Sinto falta de encontrar pessoas que desejem de fato tecer relações em trama resiliente e firme, pela qual o líquido efêmero da contemporaneidade não possa adentrar. Disse Drummond que o amor é grande, mas cabe no breve espaço de saber beijar. Eu gostaria de encontrar o amor neste instante mágico do beijo e não ver corpos sinuosos trilhando em direção ao prazer gratuito e fugaz.
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