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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
06 fev 2017 às 13:31

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Ante
Olhou pela janela do passado. Viu no quintal a criança a brincar. Pés no chão, cabelos desfeitos. Viu um sorriso no rosto da criança ser desenhado pelo vento, que, ao passar, levou o sorriso e deixou umas linhas traçadas na pele como ferro a marcar o gado. Olhou de novo pela janela, viu a moça a organizar a humilde casa, a correr com as panelas no fogão. O vento soprou e trouxe o sorriso, todavia passou rápido e o levou. Não sem antes deixar um vinco no corpo. Insistente, olhou pela janela. Animou-se deveras. Viu uma pequena mulher a cuidar da casa e dos filhos. Recebia com alegria aquele a quem ela destinava seus sentimentos. Sentia-se uma rosa. Era mesmo rosa, mas daquelas que o sol e o tempo vão lentamente secando. Um dia o vento chegou e o belo sorriso da mulher deu espaço a uma nova linha de expressão que se juntou a outras de antanho. Ainda houve tempo de olhar mais uma vez pela janela, não a do passado, mas a do presente. Antes não tivesse insistido para olhar. Viu o vento chegar com um sorriso, mas tão rápido durou que as marcas ficaram ainda mais sobressalentes. Vincos feitos pela navalha do desprezo, linhas traçadas pelo lápis da solidão, cortes desenhados pela lâmina da decepção. Eis o rosto dela. Perdida. Sem respeito. Sem abraço. Sentiu uma tristeza tão profunda que não quis mais olhar pela janela por medo do que pudesse ver. Encolheu-se na cama e tentou dormir, talvez dormir para sempre, pensou, seria a melhor forma de fazer o vento devolver os sorrisos roubados.
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