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Nossa crônica

06 dez 2017 às 21:25
Contava com uns 60 anos de idade. O corpo conheceu os cansaços dos trabalhos domésticos, mas a mente há bem pouco tempo começara a trabalhar. Não porque fosse preguiçosa ou descuidada, mas porque nascera especial, e pessoas que nascem como ela poucas oportunidades têm para aprender. Por décadas, seu universo girou em torno das rotinas da casa, as quais realizava sempre com o auxílio da mãe. Havia dois anos, porém, que estava na escola. Sentia-se importante porque sabia escrever seu nome e o das pessoas que amava. Sabia fazer contas e entendeu que a palavra mundo comportava muito mais que sua casa, seu bairro. Cresceu em conhecimento - poucos, diriam os insensíveis; um colosso, bradariam aqueles que viram aquela senhora-menina desbravar letra a letra o universo da escrita. Numa atividade pedida pela professora de língua portuguesa, exprimiu seu desejo de ganhar uma boneca, não uma boneca qualquer, um bebê, para que pudesse niná-lo como não foi possível ao filho que sonhou ter. A professora leu o texto e pensou naquele sonho grandioso para a aluna; pensou ainda em tantos sonhos impossíveis de realizar que tivera e conseguiu, um a um, concretizar. Dias depois, na hora do intervalo, a aluna foi chamada à sala dos professores. Uma surpresa a esperava. Seu desejo estava ali, de vestido azul, chupeta na boca,
envolto em uma grande caixa, aguardando os braços que iriam, com amor, protegê-lo.

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