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Nossa crônica

por Cláudia Bergamini
18 mar 2018 às 22:58

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Das dorezinhas da vida

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Quando era pequena, caí algumas muitas vezes de bicicleta, doía o joelho por vários dias até criar aquela casquinha indicando que a ferida estava cicatrizando e, aí, de novo, eu pegava a bicicleta para sentir o vento da liberdade no rosto. E andava, andava... Até mais um tombo me colocar de castigo e tudo se repetir. Quando eu era adolescente, tive aquelas paixões de escola que duram o tempo do ano letivo, aquele amor que parece eterno dentro da gente, nos coloca como bobos a escrever nosso nome junto com o nome da outra pessoa dentro de um coração; faz a gente ouvir música romântica do tipo Endless Love e Heaven e ficar lembrando do rosto do menino que veio pedir a borracha emprestada ou a caneta. E a gente se derrete apenas por duas ou três palavras trocadas. Quando me tornei adulta, também me feri, não com bicicleta, mas com palavras e ações; também sonhei, não com o menino da sala de aula, mas com gestos que expressassem uma ternura verdadeira. O coração não é como o joelho ralado que cria casquinha quando começa a cicatrizar. Coração é terra que, ao se partir, não se recompõe tão facilmente, e a gente sente dor toda vez que as reminiscências do que foi dito, sonhado, planejado nos chegam e a gente percebe que nada se cumpriu. A gente sofre. Sofre por quê? Porque as irrealizações falam alto, ecoam por toda a cidade do nosso corpo, pela praia do nosso coração. O sofrer é por tudo o que poderia ter sido e não foi, por escolhas feitas que destoaram tanto das palavras ditas, por mentiras contadas, paulatinamente, por horas e horas livres para viver, todavia gastas com o que não era vida. A gente sofre por beijos cancelados, por abraços não ofertados, por carinho negado, por palavras ditas e não sentidas. A gente sofre até que entende que não há fórmula para não sofrer, mas há vida para viver. A gente entende que a euforia que sentimos por alguém pode ser contida e, ainda que demore um pouco, pode ser curada, como a casquinha da ferida no joelho. Não sofrer é construção e é devagarinho que se constrói. Cada dia coloco um tijolo na edificação chamada esquecer. Quanto tempo levará? Não sei? Apenas me convenço de que quem gerou em mim uma sensação bacana, porém sem raízes que a mantivessem, precisa ocupar menos espaço dentro da praia chamada coração. Se não me esquivar do sofrimento, jamais poderei caminhar com a felicidade.

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