O ano foi 1986. O dia foi 28 de março. O fato foi que, concomitantemente, mais de 6 mil estações de rádio dos Estados Unidos tocavam We are the World, música que contempla uma mensagem de mobilização em prol da fome que assolava a África. As vozes de maior relevância na época se uniram para cantar a necessidade de fazer um dia melhor para o outro que não tinha a oportunidade de ver nada brilhante frente a seus olhos. Não tardou e o mundo se tornou um coro uníssono e comovido pela mensagem que a letra trazia. O dinheiro arrecadado foi doado para países africanos, com vista à compra de remédio e alimento, sobretudo a Etiópia, país afetado sobremaneira com a fome. Vozes se ergueram denunciando o desvio da verba obtida com o evento por parte do governo que a recebeu. Vale lembrar que muitos países da África passavam naquele momento pelo comando de ditadores e isso dificultou, e muito, a chegada dos benefícios a quem de fato carecia, o povo. Ainda assim, o brilho não se perdeu, ao menos para o mundo, que assistiu a 44 cantores de renome, dentre eles, Tina Turner, Billy Joel, Bob Dylan, Stevie Wonder, Cyndi Lauper, Michael Jackson, mobilizarem-se por uma causa. Eu tinha 10 anos quando isso aconteceu e me lembro de uma edição da extinta Revista Manchete em que a capa trazia uma criança com a mãe, os rostos não passavam de um cadáver coberto por uma pele ressecada, com os olhos parados como quem anuncia a perda da esperança. Nesta semana em que os cristãos celebram uma data ligada à vida, não posso deixar de registar a necessidade de que a vida seja tratada como vida. Os tempos são de muitas mensagens digitais e poucas reais. Há pessoas que ainda carecem de auxílio para encontrar uma forma de fazer os olhos refletirem esperança. Muito mais do que discursos enfáticos sobre respeito, nós precisamos é de ações que sejam a figuração do respeito. O tema precisa deixar de ser tema e passar a ser figura concreta. Olhai as mãos vazias e pensai que nelas há espaço para o material, mas também para o amor, que é essencial.