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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
11 set 2017 às 23:05

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Que as relações entre as pessoas são diferentes de outras épocas, eu já sabia há muito tempo.
Que as mulheres ainda são tratadas com descaso e desrespeito por muitos, eu já sabia também.
Agora que Chico existia, somente esses dias tive o privilégio de saber. Chico é um desses homens rústicos, de ideias que não caminharam com o tempo, pensa nas relações humanas com a graça pueril, com o olhar não contaminado pela maldade que impera entre os homens. Conheci Chico por acaso, nem sei se o nome dele é Francisco ou se Chico é uma forma de se dirigir a alguém que tem um nome bem complicadinho, como me contaram lá na região onde ele mora.
O que me chamou a atenção nele foi a pureza no olhar. Quando apertou minha mão para me cumprimentar, segurou tão forte que pensei que meus dedos fossem se quebrar. Ainda bem que não me deu um abraço, pensei na hora, senão iria me partir ao meio. Troquei poucas palavras com ele, mas foram suficientes para eu conhecer toda a sua vida. Em sua simplicidade, ele nem conseguiu perceber que me contou intimidades que, em geral, não dizemos a estranhos. Contou-me de seu trabalho na agricultura, que passava o dia a lidar com os serviços que o ambiente rural gerava. Tratar dos animais, regar a horta, olhar o tempo para ver se vai chover e programar o dia para o plantio da pequena roça. A rotina dele parece não ter nada de complexa, na verdade, quem olha Chico pensa que as pessoas como ele são simples demais. Ledo engano! O homem é complexo por natureza. Não me iludo com a sobriedade das roupas, da linguagem, dos modos, porque quando me peguei conversando com Chico é que percebi que os conflitos humanos são afins. Chico tinha um filho que havia falecido há pouco tempo. Não saía de sua boca muitas palavras para expressar a dor, mas dos olhos daquele homem emanava a sensação de solidão e, ao mesmo tempo, não sei como, fluía vida daquele olhar. Uma vontade latente de conhecer outros lugares, de concretizar planos, de sentir de novo a sensação de ter nos braços uma vida fruto da sua. Chico é sofrer e alegria, é simplicidade e complexidade, é um misto de ideias do passado que não se querem renovar e de ações que se mostram adiantadinhas. Não sei se verei Chico de novo, mas aprendi com ele a acreditar. E essa lição levarei para sempre.
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