Notícias

Nossa crônica

12 jan 2017 às 09:39
Nada
Chuva é melancólica, quando se acorda na madrugada e nada mais consegue trazer de volta o sono, ela se torna ainda mais melancólica. Há uma melodia dolorida, uma harmonia tristonha, um ruído nostálgico. Bom seria se a chuva caísse em outra janela. A minha não precisa de sons assim, a minha precisa de uma gargalhada intensa capaz de me tirar a sombra que insiste em ficar nos olhos. O nada, apenas o nada tem me atormentado. Se insiste em ficar é porque já não pode mais sair. Se me põe em silêncio e reflexiva, é porque meu sentir não pode ser de outra maneira. Passos a não serem dados, vontades a não serem consumadas, desejos a serem trancafiados e deixar que somente o nada prevaleça. Se amo, sinto falta, sinto náusea diante da quietude, sinto ausência. Porém, se não amo, prefiro instantes fugazes, prefiro teses esclarecedoras e cheias de razão, prefiro desligar-me do mundo a ter de responder. Já pensei no amor como um nada, já me esvaziei do amor de forma intensa, depois, num ato de fraqueza, abri de novo algumas portas já tão cheias de ferrugem e permiti que ele entrasse. Mas o amor é traiçoeiro, caminha com passos apressados e sem paciência, e vai tomando espaços tão desabitados, e vai colorindo caminhos tão cinzas, e vai reconstruindo pontes tão desconsertadas. Depois, com a mesma intensidade com que chega, retira-se. Começa aos poucos a retirada, com classe. Cada dia um pouco menos, até que o instante torna-se tão ínfimo que não é mais tempo que se doa, é somente um instante para lembrar que ainda está ali, é somente um instante que se oferta como esmola. O que prefiro? Hoje não quero nada. Prefiro fechar feridas, prefiro cicatrizá-las, prefiro voltar a minha essência em busca do nada.

Continue lendo