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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
31 out 2016 às 10:02

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Em que será que ela está pensando?
Como adivinhar todos os pensamentos que povoam a mente de uma pessoa. Pensamentos vêm e vão porque são sonhos, porque já foram reais, porque se deseja que eles aconteçam ou somente porque são ideias, sentimentos. Alguns deles são tão ousados que sequer é possível ponderar abandoná-los. Outros são mais que ousados, são atrevidos, pertencem àquela família das ideias das moscas teimosas, as quais já andaram povoando a mente de personagens literárias de outros tempos.
Porém, à parte de serem as breves considerações um prólogo, vamos logo ao que interessa, a saber, no que pensava a moça naquele instante.
Ele lhe fez a pergunta em um momento em que a percebeu mergulhada no oceano que vinham de seus olhos. Ele notou que, mais do que doçura, dos olhos emanava uma reflexão. Saber pontualmente de que se tratava seria impossível, mas não para ele, pois já havia aprendido a tirar dela verdades que ela não desejava dizer, descrever gestos, cenas ou narrar fatos que deveriam ser guardados. Naquele momento, a moça preferiu não revelar que ideias eram aquelas que tanto persistiam em ficar. Mas como ideias insistentes que eram, vieram parar aqui, neste pequeno texto em que se rabiscam linhas para expressar todo o universo que emana dos olhos daquela menina-mulher.
Ela continuou a contemplá-lo, com um amor sem nexo, porque todo amor é desprovido de nexo; continuou a ouvi-lo como quem ouve uma doce sinfonia. Para ela, ter a atenção dele significava ter muito mais do que de fato ela já havia conseguido. Pessoas são egoístas, não gostam de doar-se, tampouco de se preocupar com o outro. Ele não se mostrara assim. De modo algum, interessava-se, ao menos era o que parecia, na banalidade de vida que ela lhe mostrava. Interessava-se pelo mundo tão comum, tão cheio de mesmices que ela lhe desenhou. As conversas eram, por certo, cheias de encantamento para ela, para ele, talvez fossem somente conversas.
A pergunta para a qual ele, homem vivido em caminhos tão diferentes, construídos em estradas tão distantes, gostaria de uma resposta era muito simples de responder. Ela não entendeu porque ele não desvendou logo de pronto. Talvez, pensou a moça, ele já saiba, mas preferiu silenciar. Dentro dela um rio de sensações corria, convergia para caminhos ainda ocultos. As sensações careciam de abrir estradas, desbravar caminhos, podar árvores imensas que foram plantadas por mãos maldosas, a fim de ocultar o brilho do sol ou deixar baça a luz da lua. O pensamento dela, no exato instante em que ele indagou, era muito simples, daquelas simplicidades sem explicação, daquelas pseudo-simplicidades... Aquela mulher de olhar oceânico pensava na protagonista do conto que ela vinha ajudando a escrever. A escrita era ainda breve, uma escrita tímida em vivência e ousada em desejo. Todavia, pensava a moça no desejo de que o conto que estavam a escrever juntos se tornasse inexaurível e que de tantos e tantos que ele já escreveu, aquele fosse o último deles e ela se tornasse a sua protagonista.
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