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Nossa crônica

11 dez 2016 às 23:19
O jantar
Ela chegou ao restaurante e se sentou solitária em uma mesa no centro do salão. O seu semblante era cansado. Os olhos denunciavam lágrimas insistentes; porém, aqueles olhos tinham um brilho que lhes era peculiar. As mãos de unhas escarlates eram delicadas e macias e, ao olhar para elas, a mulher se lembrava há quanto tempo não sentia a segurança de outra mão na sua. Escolheu um prato leve, pediu vinho e não brindou. Ao passo que degustava o sabor do prato, sentiu-se observada. À sua esquerda, um solitário cavalheiro admirava-a com atenção. Ela se incomodou, mas ao mesmo tempo, um sentimento de alegria lhe tomou, porque gostou de saber que estava sendo observada.
Findado o jantar, fez menção ao garçom, pois desejava escolher uma sobremesa. Mas o garçom lhe informou que haviam escolhido uma para ela. E trouxe então à mesa sem mencionar quem fora. Ainda que ela deduzisse ter sido o cavalheiro solitário, nada perguntou ao garçom, que entregou-lhe um pequeno bilhete: "Poucas são as pessoas de presença tão marcante como a sua. Me ligue, ansioso". O bilhete trazia um número e uma assinatura. O cavalheiro já se levantara, olhou para ela e deu um sorriso discreto e carinhoso. Passou por detrás de sua mesa e tocou-lhe levemente o ombro.
A mulher sequer provou da sobremesa, ficou ali a pensar e a imaginar quem seria aquele homem. Olhou tantas vezes ainda para o celular, há horas que aguardava a mensagem de quem de fato era o dono de seu coração. Mas não veio. Guardou em sua bolsa o pequeno bilhete e voltou para casa ainda mais sem rumo do que antes.
Naquela noite, não pode dormir. A vida estava lhe apresentando talvez uma oportunidade de ter alguém que pudesse seguir ao seu lado. Lembrou-se das horas de espera pela mensagem, lembrou-se das noites em que solitária desejou o calor do outro ao seu lado, lembrou ainda do que havia em seu coração e isso pesou demais, porque sabia, o que o homem supostamente tentaria lhe oferecer, ela já havia encontrado de uma forma rara e única. Decidiu ir até a cozinha, rasgou o bilhete, colocou dentro de um prato e pôs fogo no pequeno papel.
A mulher encolheu-se na cama como quem tenta abraçar a si mesma. De seus olhos, as mesmas lágrimas insistentes chegavam com furor, o coração inquieto respeitava o que dizia a boca quase num sussurro: "tenha paciência".

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