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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
27 nov 2016 às 23:32

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Em espinhos
A madrugada ainda não havia começado quando ela percebeu que um lamento bem dolorido começara a se formar. Tentou pensar em situações alegres. Lembrou-se de momentos tantos em que o sorriso tomava de um lado a outro o rosto. Pensou em sua voz, como andava a ouvi-la tanto e tanto nos últimos dias. Nas reminiscências que lhe fluíam, via o menino pequeno a correr, ouvia sua voz lhe chamar, segurava na mãozinha dele e entendia que, para ele, a mão dela era porto seguro. Divagou sobre anos de solidão, de renúncia, de um estar só consigo enquanto ao seu redor uma multidão se fazia. Pensou em tardes tão coloridas, em que vozes e correrias davam à casa ares de pessoalidade, de vida. Olhou para si. Viu-se tão coisificada, ser que vaga por aí a cumprir horário, rotina, tudo tão sem brilho, tão sem cor, tão sem sabor. Não tardou e as lágrimas tomaram o rosto dela. Um rosto delicado, mas que não encobertava o cansaço do dia e, mais ainda, não encobertava o cansaço de uma vida talhada em duras penas, em espinhos que lhe sufocavam a alma. Tentou dissipar tantos pensamentos ruins que insistiam em permanecer com ela. Tentou dissipar tantas sensações que a atormentavam, fazendo-a sentir-se tão sozinha. Chamou por alguns nomes, mas em vão. Todos já se foram. Todos a deixaram. Dentro dela, a dor de ser incompreendida era um convite para findar a sequência de sofrimento que se amontava vida adentro. Era um convite para quem sabe sorrir. Rendida às lágrimas, ela entendeu que nada que viesse fazer amenizaria a dor e a culpa que carregava. Agora era apenas segurar em suas mãos a messe paupérrima e lamentar dia a dia o seu caminho.
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