Incrível como um episódio pode despertar em nós lembranças, das quais, muitas vezes, nem resquício parecia existir. Estávamos no meio de uma aula, e sala de aula é um ambiente profícuo para que vários assuntos venham à tona. O que surgiu dia desses me trouxe aquela saudade gostosa e um riso deliciosamente leve. Minha tia não era surda, mas usava um aparelho auditivo para suprir a deficiência. Quando não estava afim de ouvir brados que a incomodavam, continuava com o aparelho no ouvido, só que desligado. Então, aí que não ouvia nada mesmo. Ai se eu tivesse esse poder! Acho que recorreria ao recurso ao menos uma vez ao dia. O caso é que ela começou a separar as roupas que iriam para a máquina de lavar. Máquina de madeira, Müller, daquelas que dançavam de um lado a outro. Colocou uma coberta e lá deixou batendo. Tampa fechada. Tomada ligada e equipamento que só desligava quando tirava da tomada. Barulho não se ouvia nenhum. E a cabeça a mil fez ela esquecer da máquina lá ligada. Passado um tempo, sabe lá Deus quanto, ela se lembrou de ir desligar e abriu a tampa. Foi aí que descobriu que junto com a coberta tenha lavado o gato. Saiu de lá encharcado. Minha tia deu um pulo ao abrir a tampa porque o bichano pulou também. Ela brincava ao contar a história dizendo que até ouvia o gato miar quando se lembrava do tempo que ele ficou lá batendo. Foi uma delicia lembrar dessa história quando a aluna disse que a avó dela havia batido um gato com a roupa. Nenhum texto traz de volta o sorriso daquela época, nem o jeito engraçado de minha tia contando a história, mas o meu coração se encheu de uma doce alegria e viajou no tempo da máquina de madeira a girar, girar, batendo coberta e gato.