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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
09 jul 2017 às 22:09

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Vão, palavras nascidas de mim, contem a ele que um dia vocês foram músicas em cujo enredo havia mais canção e menos temas, havia um conjunto sonante que convidava ao sorriso, ao amor, que aflorava a libido, despertava o desejo e se fazia flor.
Digam a ele que houve o tempo de espalhar sensações no ar, houve o tempo de dar vida ao corpo, fazer dele voz e movimento, ritmo e poesia no frenesi do laço que atava sol e lua no instante único em que as inverdades se faziam. Falem para que ele compreenda que vocês eram palavras que teciam um fio rubro dourado e nada mais desejavam senão dar vida ao amor.
Vão, palavras que em mim habitam e sufocam-me, cantem a ele uma canção de rosas, perfumada e doce que possa embalar o corpo, amparar as mãos, envolver a alma. Desafiem o tempo de rusgas e intentem trazê-lo para o tempo de poesia. Digam a ele que a canção dos lábios dela tem sonido fraco. Ele ignora o som, ignora a música, ignora a dança, ignora a existência daquilo que poderia salvar a poesia do mal iminente que sobre ela se abate.
Deixem que o som ecoe com palavras últimas, vãs e inúteis palavras olvidadas por ele. Com a canção nos lábios para outras bocas, com as mãos para a música de outros ouvidos, com a atenção na lua que é outra lua, com o coração na poesia que é outra poesia, assim ele vive... E ela, a dona das palavras dele, chora a música solitária da saudade. Entende o plano das inverdades, enfrenta com dor a realidade. Em outra era, palavras de quimeras, vão vocês espalhar o sereno perfumado do amor sobre a poesia. Agora, cantem a cantiga de ninar, cantem para o sol, cantem para a lua. Levem a ela sussurros de um amanhã em que haverá alguém que a torne lua dourada, prateada, encantada, lua de amor, de doçura, poesia. Hoje apenas mutação, da bondade à maldade, do amor à dor, do riso à tristeza, de poesia idílica à elegia dolorida. Com a canção nos lábios, palavras, cantem a vida e celebrem o tempo de ontem. Silenciem o agora e anunciem uma era nova antes que a noite degole o dia e uma vez mais a canção sem verdades seja badalada.

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