A noite já anunciava sua chegada quando recebi a notícia da morte do senhor Clementino. Engraçada a sensação que me invadiu, saudade, tristeza e pesar. Seu Clemente, como todos o chamavam, foi uma dessas figuras que se fazem lenda na vida de uma menina que, como eu, cresceu em cidade do interior. Foi taxista e me lembro quando comprou um Fiat Uno zero, branco do qual, por mais de um ano, não tirou os plásticos. Era para não sujar o estofamento, dizia ele. Ríamos muito. Toda a família tinha nomes com ‘cl’, mas devido ao problema de rotacismo, tratavam-se por ‘cr’. Assim, havia o Crovinho (Clovis), o Craudinei e a Craudineia. Todos os vizinhos entraram nessa onda. Há pouco, quando meu irmão me deu a notícia da morte do ‘Seu Cremente’, eu senti meu coração apertado. Lembrei-me da rede onde ele gostava de balançar, lembrei do violão que tocava e cujo som invadia toda a rua. Viveu longos anos o seu Clemente. Não houve sofrimento com doença, tampouco cirurgias e hospital. Estava dormindo e assim permaneceu. Que o sono dele possa ser leve como fora a presença daquele adorável senhor na vida das crianças do bairro. Meu coração está apertadinho e, ao mesmo tempo, alegra-se por saber que o apreço que lhe tive em vida se manterá aquecido para sempre.