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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
10 jan 2018 às 20:45

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Estava casado há uns 10 anos. Os filhos demoraram um pouco para chegar, mas quando aconteceu, vieram em escada, três, com diferença mínima entre eles. A esposa deixou de trabalhar para cuidar das crianças e da casa. A esposa deixou também de ser esposa e passou a ser mãe. Ele tinha lá seus motivos para orgulhar-se das ações dela, da dedicação, mas sentia uma saudade imensa da mulher que ela fora. No escritório, havia um rapaz de uns 25 anos, todos os dias o moço chegava e, antes de iniciar a rotina de trabalho, contava a todos sobre a alegria iminente, motivo: iria se casar. O homem casado se limitava a ouvir. Um dia, o noivo pediu ao casado um conselho sobre casamento, sem saber ao certo o que dizer, decidiu levá-lo para almoçar em sua casa e, assim, o jovem poderia conhecer sua família. Chegaram por volta do meio dia. A mulher os recebeu com um grito agudo, bradando: ‘Como pôde trazer alguém em casa sem me avisar?’ Ela levava o cabelo preso, o rosto suado e as mãos demonstravam os muitos cuidados com a vida e poucos com ela. A esposa se desculpava pela desordem na casa, pela simplicidade da comida, pelo barulho das crianças. O menor, de 3 anos, agarrava o pescoço do menino de 5 anos, e o de 7 jogava vídeo game com a TV em volume bem alto. Sossego era algo que não havia ali. Ao caminhar pela sala, o rapaz ia pisando em brinquedos, tropeçou em um deles, mas conseguiu se equilibrar para não desmoronar no chão, a mulher ia se desculpando e recolhendo um a um. Meia hora depois, o almoço fora servido, comidinha simples, mas bem-feita. As crianças diziam não gostar de alface; outro, de tomate; outro, da cebola que temperava o arroz. Nem pai nem mãe comeram, porque trataram de alimentar os filhos. O rapaz observara o cenário como quem faz análise de um terreno em que vai iniciar a construção. Despediram-se uns quarenta minutos depois com a mulher pedindo desculpas de forma exagerada e as crianças disputando a atenção da mãe. Então, perguntou-lhe o amigo: ‘o que achou da minha família?’ O jovem ficou meio sem saber o que dizer, aí apenas disse: ‘linda’.


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